Sepultamentos em gesso revelam luto por bebês romanos
Sepultamentos raros encontrados na Inglaterra desafiam textos antigos e indicam que crianças pequenas eram valorizadas na Britânia romana

Escavações realizadas em York, no norte da Inglaterra, estão reformulando o entendimento sobre como os romanos lidavam com a morte de crianças pequenas. Embora textos jurídicos da Antiguidade afirmem que bebês com menos de um ano não deveriam ser velados, uma nova investigação sobre raros “enterros de gesso” indica que, na prática, o luto infantil existia — e podia envolver rituais sofisticados.
O estudo é conduzido no âmbito do projeto Seeing the Dead, parceria entre a Universidade de York e o York Museums Trust. A equipe analisou sepultamentos caracterizados por um procedimento incomum: o corpo era colocado em um sarcófago de pedra ou chumbo, e depois coberto com gesso líquido, que endurecia ao redor do cadáver. A técnica, além de selar o túmulo, preservava impressões de tecidos e objetos associados ao morto.
Tradicionalmente, acreditava-se que esse tipo de ritual fosse restrito a adultos da elite. No entanto, a arqueóloga romana Maureen Carroll identificou que, entre mais de 70 sepultamentos em gesso examinados, ao menos sete pertenciam a crianças — três delas com menos de quatro meses de idade. A constatação desafia a leitura literal das normas antigas, que previam restrições ao luto por bebês.
“Os bebês eram os membros mais vulneráveis da sociedade romana”, escreveu Maureen Carroll, arqueóloga romana da Universidade de York, em uma postagem de blog de 18 de fevereiro, mencionando que a mortalidade infantil girava em torno de 30%. Ainda assim, segundo ela, as limitações descritas nas fontes legais diziam respeito apenas ao luto público. “Eles não tiveram qualquer influência sobre sentimentos como o luto ou a sensação de perda sentida e expressa pela família sobrevivente em privado”, escreveu ela.
Sepultamentos de bebês
Um dos casos mais marcantes veio à tona ainda no século 19, durante a construção da Ferrovia de York, em 1892. O corpo de um recém-nascido, estimado em 1 ou 2 meses de idade, foi encontrado envolto em uma capa de lã tingida de roxo, adornada com fios e borlas de ouro. O bebê havia sido colocado em um sarcófago de chumbo antes de receber a camada de gesso. Embora os ossos não tenham resistido ao tempo, as marcas do tecido luxuoso permaneceram visíveis.
Este é o único sepultamento em gesso com tecido tingido já encontrado, escreveu Sarah Hitchens, especialista em têxteis arqueológicos da Universidade de York, em uma postagem de blog de 23 de fevereiro. “É provável que o tecido roxo fosse feito de uma fibra animal, como a lã”, escreveu Hitchens, sugerindo que a peça funcionava como sudário.

Outros achados reforçam a complexidade desses rituais. Um bebê de cerca de quatro meses foi encontrado entre as pernas de dois adultos. A relação entre eles é incerta, “mas é evidente que eram intimamente ligadas na vida e na morte”, escreveu Carroll. Já uma menina de 7 a 9 anos foi enterrada com joias de ouro, prata, cobre, ônix, vidro e coral. Próximo aos pés, havia dois pares de botas e um par de sandálias, além de ossos possivelmente pertencentes a uma galinha de estimação. “A digitalização 3D do seu corpo, visível sob um sudário ou lençol, revela o quão frágil e magra ela estava, talvez indicando uma doença prolongada antes de sua morte”, escreveu Carroll.
A equipe agora analisa o gesso em busca de resíduos de substâncias aromáticas. “Estamos testando o revestimento de gesso em busca de evidências de substâncias aromáticas, como incenso ou mástique”, disse Carroll à Live Science por e-mail. Também serão examinados o corante roxo e os fios de ouro.
Para os pesquisadores, os achados indicam que as normas escritas por juristas romanos não refletiam integralmente as práticas familiares na Britânia romana. “Tudo isso certamente sugere que crianças tão jovens eram valorizadas e cuidadas, ao contrário da antiga noção de que os romanos não se importavam quando seus bebês morriam porque a mortalidade infantil era alta”, disse Carroll. “Um completo absurdo!”