Sinais em artefatos alemães podem ser forma de escrita com 40 mil anos
Estudo que busca entender padrões em marcas paleolíticas pode ajudar com a cronologia da história da comunicação humana; entenda!

Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, nesta segunda-feira, 23, indica que as sequências repetidas de pontos, traços, cruzes e entalhes não eram apenas decorações. Uma análise computacional de mais de 3 mil sinais geométricos gravados em artefatos do Paleolítico Superior sugere que humanos da Idade do Gelo utilizavam sistema de sinais entre 34 e 45 mil anos atrás.
Os objetos analisados incluem uma estatueta de marfim, ferramentas e pequenas esculturas encontradas em cavernas alemãs. Segundo a revista Popular Science, entre esses artefatos está a estatueta de mamute da caverna de Vogelherd, datada de cerca de 40 mil anos e apresentando diversas sequências de cruzes e pontos.
O linguista Christian Bentz e a arqueóloga Ewa Dutkiewicz se concentraram na análise da estrutura formal dos sinais e criaram um banco de dados digital com milhares de inscrições provenientes principalmente do jura da Suábia, no sudoeste da Alemanha. O objetivo era identificar o que Bentz chama de “impressão digital estatística” desses sistemas simbólicos.
Utilizando métodos de linguística quantitativa e modelagem estatística, os pesquisadores avaliaram frequência, previsibilidade e padrões de repetição das sequências. “A pesquisa está ajudando a revelar as propriedades estatísticas únicas ou a impressão digital estatística desses sistemas de sinais, que são um precursor inicial da escrita”, afirmou o pesquisador.

Sinais nos objetos
Bentz aponta que os sinais apresentados nos artefatos são frequentemente repetidos como cruz, cruz, cruz, linha, linha, linha e que esse tipo de repetição não é um padrão característico encontrado na linguagem falada.
A equipe do estudo utilizou o conceito de entropia, uma medida estatística da quantidade de informação que uma sequência carrega. Sistemas muito imprevisíveis têm muita entropia e sistemas repetitivos têm baixa entropia.
A estrutura não corresponde à escrita moderna, a comparação mais próxima é com a escrita proto-cuneiforme mesopotâmica, datada a cerca de 40 mil anos depois, repercute a Revista Galileu.
“O ser humano desenvolveu a capacidade de codificar informações em sinais e símbolos ao longo de muitos milhares de anos. A escrita é apenas uma forma específica dentro de uma longa série de sistemas de sinais”, explicou Bentz em comunicado.
Além disso, Dutkiewicz lembra que os artefatos eram em sua grande maioria portáteis, sendo possível observar que carregavam os objetos consigo e que essa é outra maneira de ver semelhança com as tabuletas proto-cuneiformes.
Os artefatos datam um período em que o Homo Sapiens havia acabado de se estabelecer na Europa e ainda coexistia com os neandertais. Os resultados indicam que os grupos já possuíam capacidades simbólicas semelhantes aos humanos atuais.
O conteúdo específico das sequências continua desconhecido, mas os pesquisadores possuem certeza de que as marcas não são apenas decorações, e sim padrões reproduzíveis e reconhecíveis dentro de um grupo social. “Há muitas sequências de sinais a serem encontradas nos artefatos. Nós apenas começamos a descobri-las”, finalizou Dutkiewicz.
*Sob supervisão de Éric Moreira