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Pré-eclâmpsia pode ter colaborado na extinção dos neandertais, diz estudo

Estudo sugere que complicação na gravidez pode ter contribuído para a extinção dos neandertais, mas hipótese divide especialistas; entenda!

Neandertal
Representação de mulher neandertal / Créditos: Getty Images

Um novo estudo publicado no Journal of Reproductive Immunology levanta uma hipótese controversa sobre o desaparecimento dos neandertais: a pré-eclâmpsia, complicação potencialmente fatal da gravidez, pode ter desempenhado papel decisivo no declínio populacional desse grupo humano extinto. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de especialistas em paleoantropologia, que consideram a ideia especulativa e carente de evidências diretas.

O artigo, assinado por uma equipe internacional de neonatologistas e obstetras-ginecologistas, argumenta que a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia — condição associada que envolve convulsões durante a gestação ou no período pós-parto — “nunca foram seriamente consideradas em hipóteses sobre a biologia reprodutiva dos neandertais e sua eventual extinção”. Para os autores, a ausência desse debate representa uma lacuna nas explicações sobre o fim do grupo.

A pré-eclâmpsia é caracterizada por níveis perigosamente elevados de pressão arterial, podendo comprometer órgãos como coração, rins e fígado. Atualmente, a condição afeta até 8% das gestações e pode evoluir para eclâmpsia, quadro que inclui convulsões e, em alguns casos, danos cerebrais. Sem tratamento, ambas podem ser fatais para mãe e feto.

Embora os mecanismos exatos da doença ainda não sejam totalmente compreendidos, pesquisas sugerem que ela pode estar associada a uma implantação anormal e superficial da placenta no útero. Em espécies humanas com cérebros grandes, como o Homo sapiens, as demandas metabólicas do feto teriam favorecido uma implantação placentária mais profunda, garantindo maior transferência de nutrientes. Quando esse processo falha, a tentativa da placenta de compensar a oferta insuficiente pode elevar a pressão arterial materna, sobretudo no terceiro trimestre, fase de rápido desenvolvimento cerebral do feto.

Partindo desse entendimento, os pesquisadores sugerem que a pré-eclâmpsia “pode ter constituído uma pressão seletiva adicional e subestimada sobre os neandertais, contribuindo para sua extinção”. Segundo a hipótese apresentada, os neandertais “podem ter carecido de um mecanismo de proteção fundamental” contra a condição — mecanismo que alguns dos próprios autores já propuseram anteriormente para humanos modernos, embora ele ainda não tenha sido identificado. Caso tal proteção não existisse entre os neandertais, isso poderia ter provocado perdas reprodutivas frequentes e maior mortalidade materna, acelerando o declínio populacional.

Debate científico

A proposta, contudo, não convenceu parte da comunidade científica. O estudo não apresenta evidências diretas de que neandertais sofriam de pré-eclâmpsia, nem de que a condição fosse mais frequente ou mais grave entre eles.

“A ideia de que ‘neandertais estavam condenados à pré-eclâmpsia’ vai muito além das evidências disponíveis”, afirmou Patrick Eppenberger, co-chefe do Grupo de Fisiopatologia Evolutiva e Estudos de Múmias do Instituto de Medicina Evolutiva de Zurique, em declaração por e-mail ao Live Science. Embora reconheça que a pré-eclâmpsia esteja ligada a características evolutivas da placenta humana, ele pondera que “o que é muito mais difícil de sustentar é a alegação de que ela era mais frequente ou mais letal nos neandertais do que nos primeiros Homo sapiens, ou que desempenhou um papel fundamental em seu desaparecimento, especialmente considerando a longa persistência dos neandertais” por mais de 300.000 anos.

Eppenberger também destacou que outras hipóteses já foram propostas para explicar a extinção do grupo, incluindo fatores genéticos relacionados à hibridização com humanos modernos. Para ele, a nova proposta é instigante, mas ainda carece de base empírica sólida.

A arqueóloga April Nowell, da Universidade de Victoria, no Canadá, também demonstrou cautela. “O motivo da extinção dos neandertais é uma questão que capturou a imaginação do público e dos pesquisadores”, disse ela ao Live Science. “Todos estão em busca de uma resposta definitiva.” Ainda assim, Nowell ressaltou que as causas do desaparecimento neandertal são complexas e multifatoriais, e afirmou que o estudo não a convenceu.

Segundo ela, mesmo que o Homo sapiens tenha desenvolvido algum mecanismo de mitigação da pré-eclâmpsia, não é possível descartar que outros grupos humanos também o compartilhassem, dada a ampla evidência de intercâmbio genético entre populações.

Eppenberger classificou o trabalho como “um interessante experimento mental de medicina evolutiva” e reconheceu que futuras análises genéticas poderiam testar aspectos da hipótese. Ainda assim, advertiu que “a genética pode fornecer pistas sobre a plausibilidade e as diferenças populacionais, mas provavelmente não ‘confirmará’ a pré-eclâmpsia em neandertais da mesma forma que os dados clínicos fariam”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.