Naufrágio mais antigo de Singapura revela cerâmicas e rota comercial do século 14
Escavação marítima recupera 3,5 toneladas de cerâmica e indica que a Singapura pré-colonial integrava redes de comércio regionais e de longa distância

Uma escavação marítima conduzida ao largo da costa de Singapura trouxe à luz o mais antigo naufrágio já identificado nas águas do país e revelou novos indícios sobre a relevância comercial da antiga Temasek no século 14. Conhecida como Naufrágio de Temasek, a embarcação afundou entre 1340 e 1352, período em que a atual Singapura funcionava como um entreposto estratégico conectado a rotas regionais e de longa distância.
Entre 2016 e 2019, arqueólogos recuperaram aproximadamente 3,5 toneladas de cerâmica do fundo do mar. A maior parte do material consiste em fragmentos, mas também foram encontradas peças intactas ou quase completas. Entre os destaques estão cerca de 136 quilos de porcelana azul e branca produzida em Jingdezhen, na China — volume superior ao registrado em qualquer outro naufrágio documentado. A carga incluía ainda celadon de Longquan, cerâmica qingbai ou shufu de Jingdezhen, cerâmica branca de Dehua, peças verdes provenientes de fornos de Fujian e jarros de grés marrom de Cizao.
Detalhes do estudo
O conjunto foi analisado pelo Dr. Michael Flecker, da Heritage SG, subsidiária do Conselho Nacional do Patrimônio de Singapura, em estudo publicado no Journal of International Ceramic Studies. O pesquisador examinou estilos decorativos, procedência dos fornos e históricos de produção para estimar a data da última viagem do navio. Entre os artefatos, diversas tigelas azuis e brancas apresentam um motivo recorrente de patos-mandarim nadando em um lago de lótus. A produção desse padrão parece ter ocorrido por um período limitado durante a dinastia Yuan, antes que instabilidades interrompessem as atividades dos fornos, o que situa o naufrágio em meados do século 14.
Nenhum vestígio do casco de madeira foi preservado, mas a composição da carga e os fluxos comerciais da época indicam que se tratava provavelmente de um junco chinês carregado em Quanzhou. A combinação de utensílios de mesa refinados e grandes recipientes de armazenamento sugere uma embarcação mercante que transportava tanto bens de alto valor quanto contêineres destinados a mercadorias a granel.
A análise comparativa com escavações terrestres em Singapura reforça a hipótese sobre o destino do navio. Padrões decorativos encontrados em tigelas e vasos menores correspondem a fragmentos desenterrados em Fort Canning e em outros sítios arqueológicos locais. Por outro lado, grandes travessas azuis e brancas, com 40 a 50 centímetros de diâmetro, populares na Índia e no Oriente Médio naquele período, não aparecem na carga do Temasek. Os pratos recuperados medem menos de 35 centímetros. Essa ausência sustenta a interpretação de que a embarcação tinha como destino Temasek, e não mercados do Oceano Índico.
Além de esclarecer rotas e destinos, o naufrágio oferece um retrato preciso das mercadorias que circulavam no Sudeste Asiático durante a dinastia Yuan. Como o conjunto corresponde a um único carregamento concentrado em um intervalo curto, os pesquisadores o consideram uma coleção de referência para a identificação de achados semelhantes em outros contextos arqueológicos, repercute o Archaeology News.
As descobertas também contribuem para revisar narrativas sobre a Singapura pré-colonial. Durante décadas, relatos populares caracterizaram o território como um pequeno povoado de pescadores. Pesquisas arqueológicas recentes já vinham indicando um cenário distinto. O naufrágio de Temasek acrescenta evidências marítimas a esse quadro ao demonstrar que embarcações carregadas com toneladas de cerâmica e porcelana de alta qualidade navegavam até o local, apontando para a existência de um porto ativo e integrado a redes comerciais séculos antes de 1819.