Papéis de gênero no Neolítico eram distintos e flexíveis, revela estudo
Análise de 125 esqueletos do Neolítico na Hungria mostra diferenças entre homens e mulheres, mas indica variações nas práticas e no trabalho; entenda!

Um estudo publicado em 16 de fevereiro de 2026 no American Journal of Biological Anthropology indica que os papéis de gênero no período Neolítico europeu eram distintos, mas apresentavam considerável flexibilidade. A pesquisa analisou 125 esqueletos de adultos provenientes de dois sítios arqueológicos no leste da Hungria e cruzou dados osteológicos com informações sobre práticas funerárias para compreender como trabalho, rotinas e rituais se relacionavam ao gênero.
Os vestígios examinados pertencem aos sítios de Polgár-Ferenci-hát, datado entre cerca de 5300 e 5070 a.C., e Polgár-Csőszhalom, datado entre aproximadamente 4800 e 4650 a.C. Embora situados na mesma microrregião, os dois locais revelam padrões sociais diferentes.
A equipe investigou alterações ósseas associadas à atividade física. Entre os marcadores avaliados estavam a espondilólise na coluna vertebral, indicativa de carga de trabalho geral; entesopatias umerais, relacionadas a esforço repetitivo em um dos braços; e facetas metatarsais nos ossos do pé, associadas ao hábito de ajoelhar ou à hiperextensão dos dedos. Os pesquisadores também analisaram a posição dos corpos nas sepulturas e a presença de objetos funerários, como ferramentas de pedra polida.
No sítio de Polgár-Ferenci-hát, não foram identificadas diferenças marcantes entre homens e mulheres nos rituais de sepultamento. A disposição dos corpos e os objetos encontrados nas covas não demonstraram separação consistente com base no sexo biológico. Do ponto de vista esquelético, também não surgiram contrastes significativos quanto à carga de trabalho geral. Homens e mulheres apresentavam indícios de rotinas fisicamente exigentes, embora com variações internas em cada grupo.
Já em Polgár-Csőszhalom, o cenário foi distinto. Os indivíduos enterrados ali apresentavam níveis mais elevados de desgaste físico em comparação aos de Ferenci-hát. As práticas funerárias seguiam padrões mais definidos: mulheres eram sepultadas sobre o lado esquerdo do corpo, enquanto homens eram colocados sobre o lado direito. Ferramentas de pedra polida apareciam com frequência em sepultamentos masculinos.
Papéis de gênero flexíveis
As evidências ósseas reforçaram parcialmente essas distinções. Em ambos os sítios, esqueletos masculinos frequentemente exibiam sinais de uso excessivo do membro superior direito. Lesões no braço dominante sugerem tarefas repetitivas unilaterais, como arremesso ou atividades intensivas com pedra e madeira. Padrões semelhantes são observados em outras regiões da Europa pré-histórica, apontando para uma tendência recorrente nas atividades atribuídas aos homens, destacam os pesquisadores em comunicado.
Em Csőszhalom, nove homens enterrados com ferramentas de pedra polida também apresentavam facetas metatarsais, indicando posturas repetidas que envolviam forte extensão dos dedos dos pés. Um caso específico, porém, destoou do padrão: uma mulher foi sepultada com objetos tradicionalmente associados ao sexo masculino e apresentava os mesmos marcadores esqueléticos. O achado sugere que o simbolismo funerário nem sempre correspondia rigidamente ao sexo biológico.
A comparação entre as duas comunidades mostra que havia diferenciação de papéis de gênero, mas não de forma imutável. Em Csőszhalom, as práticas funerárias expressavam uma organização social mais claramente estruturada em torno do gênero. Em Ferenci-hát, por sua vez, essas distinções eram menos evidentes, repercute o Archaeology News.
Os pesquisadores ressaltam que o tamanho da amostra limita generalizações amplas e que marcadores de atividade não permitem identificar tarefas específicas com precisão. Ainda assim, a integração entre análise esquelética e contexto funerário oferece uma compreensão mais detalhada de como comunidades neolíticas organizavam trabalho e identidade. O estudo indica que o gênero influenciava tanto as atividades cotidianas quanto os rituais, mas deixava espaço para variações individuais dentro de cada grupo.