Estudo faz descoberta inédita sobre o Neolítico na Holanda
Pesquisa de DNA antigo mostra que populações da Holanda resistiram às migrações neolíticas muito mais tempo do que se pensava

Um estudo inovador da Universidade de Leiden reconfigura o entendimento sobre como as populações pré-agrícolas do norte-oeste europeu reagiram à transição da caça e coleta para a agricultura e à chegada de grandes migrações pré-históricas. Segundo a análise genética, os caçadores-coletores que viviam na região dos rios Reno e Mosa — hoje ocupando partes da Holanda, Bélgica e noroeste da Alemanha — conservaram sua identidade genética por muito mais tempo do que seus equivalentes em outras partes da Europa Ocidental, resistindo à transformação demográfica provocada pelos primeiros agricultores e pelas ondas migratórias posteriores.
A equipe de arqueólogos e geneticistas que participou da pesquisa sequenciou o DNA de 112 indivíduos que viveram entre cerca de 8500 e 2500 anos antes de Cristo nessa região de planícies aluviais. Os resultados mostram que — enquanto a agricultura se espalhava rapidamente pelo continente europeu, após sua introdução por populações neolíticas provenientes da Anatólia há cerca de 4,500 anos — os grupos de caçadores-coletores da Holanda exibiram uma notável estabilidade genética, mantendo uma proporção elevada de sua ancestralidade muito após outras populações terem sido substituídas ou assimiladas por comunidades agrícolas.
Neolítico holandês
Os pesquisadores sugerem que essa persistência está ligada às características ecológicas e econômicas da região: abundância de recursos naturais como peixes, frutos, sementes e animais selvagens, além de um ambiente úmido e interligado por canais naturais, pode ter retardado a adoção generalizada da agricultura em comparação com áreas interiores e de planície seca. Com isso, a economia tradicional de caça e coleta continuou sustentável por muitos séculos.
Outro aspecto revelador do estudo diz respeito ao modo como grupos de caçadores-coletores e agricultores acabaram por interagir. A troca genética identificada entre essas populações parece ter ocorrido principalmente por meio de mulheres migrantes, que teriam se integrado a comunidades locais de caçadores-coletores, possivelmente atuando como canais de transmissão de conhecimento agrícola e cultural, ao mesmo tempo em que preservavam grande parte da ancestralidade nativa.
Essa persistência genética só começou a mudar de forma mais expressiva por volta de 2500 a.C., com a chegada de novos grupos da estepe russa associados a fenômenos culturais mais amplos, como o complexo Corded Ware e, subsequentemente, a cultura Bell Beaker. Essa última, em particular, teve grande impacto demográfico e cultural ao se espalhar para áreas como a Grã-Bretanha, onde praticamente substituiu as populações neolíticas anteriores.