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Escavações revelam novas camadas da história de Saint-Pierre, na França

Trabalhos arqueológicos identificam ocupações contínuas do século 17 ao 19 e vestígios indígenas sob depósitos vulcânicos, na França

Fotografia tirada no local do sítio arqueológico / Crédito: Divulgação/Inrap/J.-G. Ferrié

Escavações arqueológicas realizadas recentemente no bairro de Mouillage, em Saint-Pierre, na Martinica, França, estão revelando novas informações sobre a história da cidade desde sua fundação, na segunda metade do século 17, até sua destruição em 1902. Desde dezembro de 2025, uma equipe do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas (Inrap) conduz uma escavação preventiva em uma área de cerca de 300 metros quadrados, localizada nas proximidades da catedral da cidade. Como parte do projeto, está previsto um dia de visitação pública em 7 de fevereiro.

Os trabalhos abrangem uma longa sequência de ocupação urbana, do período colonial aos tempos mais recentes. Apesar de danos causados por construções modernas sobre os níveis mais antigos, os arqueólogos conseguiram identificar quatro grandes fases de ocupação contínua, que vão do fim do século 17 até a atualidade. Essas etapas refletem as transformações sociais, econômicas e urbanísticas pelas quais Saint-Pierre passou ao longo de mais de dois séculos.

A fase mais antiga identificada corresponde a uma pedreira de pedra-pomes, explorada como fonte de material de construção. Essa atividade está associada aos primeiros momentos de ocupação da área, quando a instalação da ordem dominicana levou à fundação de uma igreja paroquial e de um cemitério, elementos centrais do núcleo inicial do bairro de Mouillage, repercute comunicado do Inrap.

Nos séculos 18 e 19, o espaço passou por mudanças significativas. Foi construído um edifício retangular vinculado às atividades portuárias, refletindo o crescimento do porto e a intensificação do comércio na cidade. Com o tempo, essa função foi substituída por um uso residencial. O local foi então pavimentado com tijolos, telhas e pedra azul, e integrado a uma rede elaborada de canalizações que fornecia água corrente às casas e a lagos ornamentais, indicando um nível avançado de infraestrutura urbana.

A fase mais recente documentada pelos arqueólogos corresponde às ruínas de uma residência de dois pavimentos. A construção incluía pisos de azulejo, uma cozinha externa, um forno de pão e uma bacia. O conjunto de objetos domésticos encontrados — como porcelanas, cerâmicas e peças de vidro — aponta para um alto status social de seus ocupantes, característica comum das residências de Saint-Pierre entre os séculos 18 e 19. Algumas das sucessivas reformas e reconstruções observadas nos edifícios podem estar associadas a desastres naturais, como terremotos e ciclones.

História ainda mais antiga

Além das camadas históricas, o sítio revelou vestígios ainda mais antigos, relacionados a uma ocupação indígena anterior à colonização europeia. Entre dois depósitos de erupções do Monte Pelée, datadas de aproximadamente 60 a.C. e 1300 d.C., foi identificado um nível arqueológico com grande concentração de artefatos. Abaixo desses depósitos vulcânicos, os pesquisadores localizaram evidências de uma ocupação indígena expressiva.

Esse assentamento inclui um depósito de lixo doméstico contendo fragmentos de cerâmica, ferramentas de pedra e restos de animais, além de buracos de postes e diversas fossas, entre elas seis sepulturas. A cerâmica encontrada permite datar a ocupação do chamado Período Cerâmico Tardio, entre 750 e 1100 d.C. As ferramentas líticas, produzidas majoritariamente com rocha local, e os restos faunísticos indicam uma economia baseada principalmente na pesca, complementada pela caça e pela exploração de outros recursos marinhos.

Antigo ornamento descoberto no local / Crédito: Divulgação/Inrap/Michael Siedlaczek

Conjuntamente, os dados obtidos pelas escavações oferecem uma visão abrangente da longa história de ocupação humana em Saint-Pierre, evidenciando tanto a complexidade do desenvolvimento urbano colonial quanto a presença indígena anterior, preservada sob séculos de transformações naturais e humanas.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.