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Documentos indicam interesses e conexões de Jeffrey Epstein no Brasil

Documentos divulgados pelo governo dos EUA citam possíveis recrutadoras, planos de concursos de moda e interesse em negócios ligados a modelos brasileiras relacionados a Epstein

Epstein
Jeffrey Epstein / Crédito: Getty Images

Milhares de documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos na última sexta-feira, 30 de janeiro, indicam que o financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein manteve conexões, interesses e possíveis atividades no Brasil. A análise feita pela BBC News Brasil identificou cerca de 4 mil menções ao país nos arquivos, que incluem depoimentos, trocas de e-mails, mensagens, identificações em fotos e referências a notícias brasileiras.

Os documentos sugerem que Epstein teria contado com uma possível recrutadora de mulheres no Brasil, além de demonstrar interesse em iniciativas comerciais — como concursos de beleza, agências de modelos e uma revista de moda — que poderiam facilitar o acesso a jovens brasileiras, inclusive menores de idade.

Um dos depoimentos, prestado à Justiça da Flórida em junho de 2010, afirma que Epstein fazia viagens ao Brasil para falar com clientes e que, quando estava no país, mantinha contato com uma mulher capaz de fornecer garotas para prostituição, inclusive menores. O nome da testemunha é tarjado, mas ela afirma ter trabalhado para Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e parceiro próximo de Epstein.

Brunel, vale mencionar, foi acusado de tráfico de mulheres e morreu na prisão em Paris, em 2022, enquanto aguardava julgamento por acusações de assédio sexual e estupro contra jovens de 15 a 18 anos — acusações que ele sempre negou. Segundo a ex-funcionária, a agência de modelos de Brunel não dava lucro e era sustentada financeiramente por Epstein, que teria interesse apenas nas meninas recrutadas, inclusive menores de idade.

No depoimento, a testemunha relata que quatro garotas brasileiras foram levadas por Brunel a uma festa na casa de Epstein, nos Estados Unidos, e que ao menos duas delas tinham entre 13 e 15 anos. Segundo ela, era Epstein quem pagava os vistos para que as meninas entrassem no país.

As garotas teriam sido apresentadas a Brunel por uma “amiga muito boa” dele no Brasil, chamada de “agente mãe” (“mother agent”, no original), cujo nome não aparece nos documentos. O relato também afirma que Brunel mantinha contato com outra mulher que conseguia prostitutas para ele e Epstein no Brasil “quando precisasse”.

A testemunha afirma ainda que seria difícil obter informações no país e sugere que pagamentos poderiam garantir silêncio. Em um trecho, diz: “cinco mil dólares no Brasil é muito dinheiro. Dá pra comprar uma casa.” Em outro, afirma: “Jeffrey Epstein tem todo o dinheiro que tem, ele podia calar todo mundo”.

As visitas de Jean-Luc Brunel ao Brasil são conhecidas e já foram registradas em diversas reportagens, inclusive da BBC News Brasil, que mostram que ele esteve no país em busca de modelos.

Modelos brasileiras

Além dos depoimentos, os documentos trazem trocas de e-mails, em 2016, nas quais Epstein discute a possibilidade de comprar uma agência de modelos no Brasil. Em uma mensagem, um interlocutor escreve: “Não tenho certeza se você quer ser dono de 100% de qualquer agência, a não ser que você encontre algum outro incentivo para manter as principais pessoas que estão lá gerenciando o negócio”. Em outra, afirma: “Estou presumindo que você está mais interessado no acesso às…[emoji de uma garota loira]”.

O mesmo interlocutor sugere a criação de um concurso de modelos no Brasil, que envolveria milhares de garotas e um investimento de US$ 500 mil. Segundo ele: “Isso envolveria pagar ao organizador e, então, ele encontraria patrocinadores e eles vasculhariam o país em busca de modelos em potencial. Você estaria interessado nisso?”, pergunta. 

“Dessa forma, você conseguiria garotas mais jovens e menos cansadas da indústria da moda. Rostos novos, basicamente. Então, essa é outra opção. Eles basicamente vasculham o país e muitas garotas aparecem. Foi assim que eles descobriram a maioria das principais modelos brasileiras que fizeram sucesso em Nova York”, acrescenta a mensagem.

Sobre o alcance da iniciativa, ele afirma: “isso implicaria ter acesso a todas as garotas, com as quais você poderia decidir o que fazer.” E completa: “Você poderia basicamente levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (há uma agência brasileira que cuida dos vistos para os EUA), ou para Paris ou o Caribe.”

“Seria um bom investimento se você quisesse construir uma marca já estabelecida e, é claro, muitas oportunidades de conhecer modelos. Mas acho que não é o mesmo acesso direto que o concurso, onde as garotas são na maioria caipiras e não modelos experientes”, complementa em outro momento.

Revista de moda

Outro conjunto de e-mails, de agosto de 2016, trata do interesse de um parceiro de Epstein em comprar uma revista de moda no Brasil. Em uma mensagem, ele escreve: “uma revista de moda brasileira está à venda. Se conseguirmos comprá-la por um preço baixo, você gostaria de comprá-la conosco? Todos os castings podem ser feitos em Nova York, então você poderia facilmente ter de 20 a 30 garotas tentando a capa todos os meses. É só uma ideia…”

A ideia seria usar a publicação para atrair modelos, com castings realizados em Nova York. Em determinado momento, o interlocutor menciona uma possível oferta de US$ 200 mil por 25% da revista. A negociação, porém, teria esfriado após dúvidas sobre a viabilidade financeira. Segundo as mensagens, Epstein teria aconselhado: “fique longe”.

O interlocutor então lamenta: “Grrrrr… pense em todas as garotas que eu teria… ok, vou deixar passar… talvez só compre o Brasil por algumas centenas de milhares; isso garantirá um fluxo constante de mulheres.” (vale mencionar que, conforme repercute o g1, o termo utilizado nas mensagens é mais explícito).

Em outra conversa, em 2017, ele afirma ter encontrado uma alternativa: “tenho a editora brasileira local no meu bolso”. Segundo ele: “então, sempre que quero que eles fotografem uma garota, eu simplesmente dou a ele alguns milhares. É muito mais barato assim… não ia dar lucro mesmo”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.