Morre o primeiro paciente a relatar a “síndrome de Havana”
Ex-agente da NSA, que associava sintomas neurológicos a "arma secreta", deixa legado de mistério e debate científico sobre caso de Havana

Michael Beck, um ex-agente de contrainteligência da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA) considerado o primeiro a relatar sintomas hoje ligados à chamada “síndrome de Havana”, morreu no dia 25 de janeiro, aos 65 anos, enquanto fazia compras em Columbia, no estado americano de Maryland. A causa exata de sua morte ainda não foi determinada, segundo sua família.
Beck ganhou notoriedade décadas atrás, muito antes de a síndrome estampar manchetes, após ser diagnosticado com Parkinson de início precoce aos 45 anos. Ele acreditava que sua doença — bem como problemas neurológicos e cognitivos persistentes — estava ligada à sua viagem em 1996 a um país que descreveu como “hostil”, onde supostamente teria sido alvo de uma arma de energia direcionada que utilizava radiação de micro-ondas de alta potência.
Embora a teoria de Beck tenha sido recebida com ceticismo por muitos especialistas, partes de um relatório que mais tarde foram divulgadas sugeriam que tal tecnologia poderia, teoricamente, causar danos neurológicos sem deixar vestígios externos, segundo registros liberados por agências de inteligência dos EUA.
Síndrome de Havana
O caso de Beck permaneceu isolado por muitos anos até que, em 2016, funcionários diplomáticos e de inteligência dos Estados Unidos em Cuba começaram a relatar sintomas semelhantes — incluindo tontura, zumbido nos ouvidos, dor de cabeça e dificuldades cognitivas — que não se encaixavam em diagnósticos médicos comuns. Esse conjunto de sinais passou a ser conhecido pela mídia e por organismos governamentais como Havana Syndrome.
Entre 2016 e 2018, mais de 200 funcionários do governo americano em embaixadas ao redor do mundo também relataram sintomas neurológicos comparáveis. Eles foram estudados por comissões científicas e painéis do governo dos EUA, que até hoje não chegaram a uma explicação consensual sobre as causas reais do fenômeno — que vão desde armas de energia direcionada até causas ambientais ou psicossociais.
Apesar da falta de consenso científico, o caso de Beck foi significativo porque trouxe visibilidade à condição muito antes de ela ser amplamente reconhecida. Ele passou anos tentando provar que sua doença estava ligada à sua exposição durante a missão no exterior e chegou a entrar com pedido de compensação trabalhista, negado pelo governo.