Do Renascimento ao Modernismo: as 5 maiores rivalidades da história da arte
Ao longo da história da arte, várias rivalidades surgiram entre artistas renomados — que garantiu ao mundo obras memoráveis e eternas; confira!

Seja nos esportes, ou mesmo naquele jogo de video-game que você provavelmente jogava com algum amigo ou parente na infância, fato é que a rivalidade é um verdadeiro motor para o aprimoramento. E, na história da arte, isso não é diferente.
Na Grécia Antiga, por volta de 400 a.C., por exemplo, os lendários pintores Zeuxis e Parrásio já chegaram a competir para determinar de uma vez por todas qual deles era o maior mestre artista de sua era. Mais de dois milênios depois, em 1983, os britânicos Joseph Mallord William Turner e John Constable também tiveram um duelo igualmente intenso, quando suas obras foram expostas lado a lado na Royal Academy, em Londres.
Fato é que, ao longo dos tempos, sempre surgiram grandes relações de rivalidade, que colaboraram para que o mundo se deparasse com algumas das obras mais esplêndidas de todos os tempos. Confira a seguir algumas das 5 maiores rivalidades já vistas na história da arte:
1. Da Vinci x Michelangelo

Dois dos maiores gênios do Renascimento, Leonardo da Vinci e Michelangelo, não apenas viveram na mesma época — embora da Vinci fosse 23 anos mais velho —, como até mesmo moraram na mesma cidade, no início do século 16. E foi nas ruas de Florença, por volta de 1503, ocorreu um dos episódios mais acirrados da rivalidade artística dos dois, segundo o escritor italiano Giorgio Vasari.
Na ocasião, Leonardo se deparou com um grupo de homens discutindo versos enigmáticos de Dante, e pediram que o gênio e polímata os explicasse a difícil passagem. Naquele momento, percebendo a passagem de Michelangelo, Leonardo disse ao grupo que o outro artista os explicaria a passagem; e, se sentindo humilhado, Michelangelo desdenhou do fracasso de Leonardo em terminar uma estátua de bronze de um cavalo anos antes, dizendo “explique você mesmo, modelador de cavalos que abandona sua obra em desgraça!”
Ironicamente, os dois artistas algum tempo depois foram incumbidos de criar cenas de batalha concorrentes em paredes opostas na mesma sala do Palazzo Vecchio; mas esse confronto nunca foi concluído, bem como os dois afrescos. Mas o que não pode ser discutido é que a rivalidade que se formou entre eles apenas impulsionou a força física e intelectual dos dois, que ficaram impelidos a superar um ao outro o tempo todo.
2. Ticiano x Tintoretto

Também durante o Renascimento, outra rivalidade bastante conhecida foi a estabelecida entre Ticiano Vecellio e Tintoretto. E tudo começou ainda na adolescência de Tintoretto — antes mesmo de adotar o nome artístico, sendo conhecido por seu verdadeiro nome, Jacopo Robusti —, quando Ticiano, que já era um mestre da arte em Veneza, o expulsou de seu ateliê após pouco mais de uma semana por lá.
Guardando mágoa do ocorrido, Tintoretto seguiu acompanhando de perto a carreira invejável de Ticiano, estudando cada uma de suas pinceladas. Isso culminou na sua obra ‘Apresentação da Virgem‘, uma releitura à sua própria maneira da pintura ‘Apresentação da Virgem no Templo‘, criada por Ticiano 20 anos antes, e que Tintoretto frequentemente visitava na Gallerie dell’Accademia.
Enquanto a versão de Ticiano é cuidadosa e calibrada, na sequência calculada de degraus se movendo da esquerda para a direita, Tintoretto preferiu criar uma tela mais dinâmica e arrebatadora, conduzindo o olhar do espectador por uma escadaria cintilante. Enquanto uma obra é mais metódica, outra espelha o milagroso. Se o aluno superou o mestre, isso certamente pode guiar um longo e frutífero debate.
3. Élisabeth Vigée Le Brun x Adélaïde Labille-Guiard

Em torno da corte francesa no fim do século 18, surgiu uma “rivalidade” entre duas mulheres artistas; que, na verdade, só existiu entre fofocas, mas não entre as duas figuras centrais da suposta confusão. As artistas Élisabeth Vigée Le Brun (que era a retratista favorita de Maria Antonieta) e Adélaïde Labille-Guiard (defensora das mulheres pintoras) conquistaram duas das quatro vagas reservadas pela Academia, a contragosto, para mulheres.
E o sucesso das duas acabou levantando fofocas maldosas, que incluíam que a verdadeira conquista delas era usar favores sexuais para conseguir encomendas valiosas e atrair homens artistas para fazer suas obras. Apesar disso, elas não se voltaram uma contra a outra em momento algum; pelo contrário, ambas desafiaram a determinação de uma época que pretendia, sempre, diminuir as mulheres.
Há um par de autorretratos feitos pelas duas mulheres — ‘Autorretrato com Chapéu de Palha‘ (1782) de Le Brun, e ‘Autorretrato com Dois Alunos‘ (1785) de Labille-Guiard —, com apenas alguns anos de diferença, que até alimentaram os rumores de uma competição, por seus temperamentos e tons diferentes. No entanto, os que observam mais atentamente notam a sintonia nos olhares penetrantes das mulheres, que refletem a determinação inabalável na luta contra a diminuição do mérito das mulheres artistas.
4. Orazio Gentileschi x Artemisia Gentileschi

Uma rivalidade bastante curiosa que se deu no século 17 foi entre Orazio Gentileschi e sua própria filha, Artemisia. E toda a confusão emocional entre os dois começou em 1612, quando Artemisia, então com cerca de 19 anos, testemunhou que o colega de seu pai, Agostino Tassi, a havia estuprado no ano anterior.
A separação entre pai e filha pode ser notada no par de pinturas ‘A Tocadora de Alaúde‘, de Orazio, e ‘Judite Decapitando Holofernes‘, de Artemisia, criada logo depois. Embora ambas as obras demonstrassem uma grande afinidade pelo claro-escuro de Caravaggio, que era prática bastante estudada da época, a visão visceral de Artemisia carrega uma ferocidade própria e implacável, que parece indicar uma recente libertação, destaca a BBC.
5. Van Gogh x Gauguin

Apesar de também estar listado como uma rivalidade artística, a relação entre o neerlandês Vincent van Gogh e o francês Paul Gauguin é bem mais conturbada do que isso. Isso porque van Gogh, na verdade, era um homem bastante solitário e com poucas amizades — tendo como seus maiores confidentes seu irmão, Theo, e seu amigo e também pintor, Gauguin.
E em 1888, a dupla de artistas decidiu testar compartilhar um estúdio na famosa Casa Amarela, em Arles; mas a tentativa de sincronizares as frequências de seus espíritos e visões artísticas acabou sendo uma falha desastrosa. Em dado momento, os dois homens tiveram uma discussão e, em um estado de grande confusão mental e emocional, van Gogh acabou mutilando a própria orelha, após Gauguin decidir retornar para Paris.
Ainda assim, deste encontro e período breve, surgiram representações emblemáticas da história gélida de olhares de canto de olho, ângulos estranhos e indiferença de um pelo outro: ‘O Homem de Boina Vermelha‘, de van Gogh, e ‘O Pintor de Girassóis‘, de Gauguin.