O manuscrito medieval em que um gato deixou sua ‘digital’ há 500 anos
No século 15, um gato deixou pegadas com suas "digitais" nas páginas de um manuscrito medieval enquanto a tinta secava; confira!

Há mais de 500 anos, um escriba flamengo dedicou longas horas à transcrição cuidadosa de um manuscrito essencial. Após concluir seu trabalho, ele deixou o pergaminho secar, apenas para retornar mais tarde e descobrir que as páginas estavam manchadas com impressões de patas de gato em tinta. Este evento pode ser considerado uma das primeiras aparições documentadas do que poderia ser chamado de uma “digital felina”.
Essa história inspira a nova exposição “Patas no Pergaminho”, que está em exibição no Walters Art Museum, em Baltimore, em Maryland, nos Estados Unidos. A mostra, que ficará aberta até o final de fevereiro, explora a presença e o significado dos gatos na Idade Média, revelando as diversas maneiras pelas quais os humanos expressaram carinho por seus amigos felinos ao longo dos séculos.
A curadora de livros e manuscritos raros do museu, Lynley Anne Herbert, comentou sobre a relevância do manuscrito: “Objetos como [o manuscrito] têm o poder de transcender o tempo, pois são muito familiares para qualquer pessoa que já tenha tido um gato. Muitas pessoas na Idade Média amavam seus gatos tanto quanto nós”, disse Herbert ao Artnet.
A afeição dos humanos por esses animais é demonstrada nas diversas ilustrações que representam gatos em várias culturas. Após descobrir o manuscrito flamengo, Herbert explorou os arquivos do museu e encontrou uma vasta quantidade de menções e representações felinas em textos e imagens islâmicas, asiáticas e de outras tradições europeias, repercute a Smithsonian Magazine.
Gatos no passado
Entre os itens expostos está uma versão turca da obra “As Maravilhas da Criação”, um texto de cosmografia islâmica do século 13 que apresenta a ilustração de um gato preto rodeado por plantas. Os gatos eram venerados pelo Profeta Muhammad e possuem um significado especial no Islã. No século 13, o sultão Al-Zahir Baybars fundou um jardim para gatos no Cairo, onde fornecia abrigo e alimento para os felinos abandonados.
Outro destaque da exposição é um Evangelho armênio do século 17, encomendado por uma mulher chamada Napat em memória de sua família, que contém diversas imagens de gatos, indicando seu papel significativo na vida doméstica. Além disso, uma pintura do século 15 intitulada “Madona e Criança com um Gato” mostra um pequeno gatinho ao lado do recém-nascido Jesus. Essa representação remete a uma lenda cristã menos conhecida que narra o nascimento de uma ninhada dentro da manjedoura no mesmo momento em que Maria deu à luz.

No entanto, a natureza calculista dos gatos e suas habilidades de caça também os tornavam símbolos frequentemente associados a personagens malignos ou contos moralizadores. “Como eram tão furtivos e conseguiam enxergar no escuro, eram vistos como criaturas um tanto etéreas“, disse Herbert em entrevista à WYPR. “Isso se traduz na ideia de que é assim que o diabo age. Se você for pecador, ele pode te perseguir e, eventualmente, te atacar”.
Nas margens dos manuscritos expostos, ilustrações divertidas mostram gatos tocando instrumentos musicais, destacando essa dualidade. Herbert observa que essas representações “reforçam a importância de uma sociedade ordenada, mostrando o caos possível se a ordem natural das coisas fosse subvertida”.
Associação com os humanos
Além disso, os humanos dependiam muito mais das habilidades predatórias de seus gatos do que atualmente. Durante a Idade Média, ratos, camundongos e outras pragas eram portadores comuns de doenças; assim, os gatos domésticos desempenhavam um papel crucial na proteção das famílias.
“A capacidade deles de caçar e matar ratos e camundongos era crucial para uma vida saudável“, explicou Herbert à WYPR. “Esses bichos frequentemente entravam em depósitos de alimentos e os contaminavam ou os comiam. Eles também roíam coisas valiosas, como tecidos e livros. … Muito cedo, as pessoas perceberam que os gatos eram excelentes caçadores de ratos. Eles eram, inclusive, descritos em enciclopédias da época por sua habilidade de caçar ratos”.

A exposição “Patas no Pergaminho” é a primeira de três mostras programadas nos próximos dois anos dedicadas aos animais na arte. As exibições já causaram grande impacto nos visitantes — tanto humanos quanto felinos. A exposição permanece em cartaz no Walters Art Museum até 22 de fevereiro de 2026.