SS Edmund Fitzgerald: a tragédia conhecida como ‘Titanic dos Grandes Lagos’
Em 10 de novembro de 1975, 29 tripulantes morreram quando o cargueiro de 222 metros SS Edmund Fitzgerald afundou durante uma tempestade no Lago Superior

Hoje em dia, um dos meios de transporte mais eficientes de todo o mundo para viagens longas é o avião, que só se tornou viável graças a uma série de avanços tecnológicos e pesquisas avançadas, para permitir que os humanos sobrevoassem pelos céus. E isso foi uma revolução bastante especial pois, no passado, aqueles que pretendiam atravessar oceanos e desbravar novos continentes tinham apenas uma opção: os navios.
E, ao contrário do que muitos podem pensar, a navegação aquática é extremamente antiga. Uma das evidências mais antigas de uso de barcos por humanos é um barco conhecido como Pesse Canoe, um barco a remo descoberto na Holanda, e datado do período Mesolítico, de entre 8.200 e 7.600 a.C., há cerca de 10 mil anos.
Com uma história de navegação tão antiga assim, é claro que a humanidade também tem, em paralelo, muitas histórias de acidentes navais e naufrágios. Um dos mais conhecidos do mundo, por exemplo, foi o naufrágio do RMS Titanic em abril de 1912, que afundou no Oceano Atlântico e marcou a maior tragédia marítima de todos os tempos, matando mais de 1.500 pessoas após uma colisão com um iceberg.
Mas outro acidente naval bastante memorável, que aconteceu no dia 10 de novembro de 1975, foi o naufrágio do navio cargueiro SS Edmund Fitzgerald. Na ocasião, todos os 29 tripulantes da embarcação morreram, depois que o navio de 222 metros foi atingido por uma tempestade no Lago Superior — entre os Estados Unidos e o Canadá —, produzindo ondas de 10 metros e rajadas de vento que superavam os 130 quilômetros por hora, partindo a embarcação em dois.
Até hoje, a embarcação é lembrada como o maior navio a afundar nos Grandes Lagos, o que lhe rendeu o apelido de “Titanic dos Grandes Lagos”. Conheça mais sobre essa história!

Rainha dos Lagos
O SS Edmund Fitzgerald, lançado em junho de 1958, detinha o título de maior navio dos Grandes Lagos. Com um casco de 222 metros, conquistou a alcunha de “Rainha dos Lagos” até que, no ano seguinte, o SS Murray Bay ultrapassasse essa marca com seus 223 metros. O navio foi nomeado em homenagem ao presidente e diretor do conselho da Northwestern Mutual Life Insurance Company, a instituição que financiou sua construção.
Uma multidão estimada em 15 mil pessoas se reuniu para testemunhar o primeiro lançamento do imponente navio, um evento que foi envolto em uma aura de presságios negativos. A garrafa de champanhe que deveria quebrar ao ser arremessada contra a proa não se partiu na primeira tentativa e houve dificuldades por parte da equipe do estaleiro para levar o cargueiro à água. Para agravar a situação, um dos presentes faleceu devido a um infarto. Contudo, uma vez em operação, o Edmund Fitzgerald rapidamente tornou-se uma lenda.
Conhecido como “Fitz“, o cargueiro transportava minério de ferro das minas de Minnesota para fundições localizadas em Detroit, Toledo e outras cidades portuárias do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Além de ser um dos maiores navios da região, o SS Edmund Fitzgerald também se destacou pela eficiência, estabelecendo recordes sazonais de transporte e atraindo multidões que se aglomeravam ao longo de seu trajeto para vê-lo passar, conforme repercute o All That’s Interesting.
Vale mencionar que, naquela época, os Grandes Lagos eram notórios pela periculosidade enfrentada por embarcações. Entre 1875 e 1975, uma média de um navio se perdia semanalmente na região. Entretanto, o Fitz era tão grande que parecia invulnerável. Mas, em 10 de novembro de 1975, uma tempestade violenta tomou conta da área.

A última viagem
A derradeira viagem do SS Edmund Fitzgerald teve início na tarde de 9 de novembro de 1975. A bordo estavam 29 tripulantes, incluindo o capitão Ernest McSorley. O navio partiu de Superior, Wisconsin, carregando cerca de 30 mil toneladas de taconita — um tipo de minério de ferro — com destino a uma siderúrgica na Ilha Zug, próxima a Detroit, numa jornada aproximada de 1.200 quilômetros.
O Edmund Fitzgerald estava navegando ligeiramente à frente do outro cargueiro, o Arthur M. Anderson, capitaneado por Bernie Cooper. Por volta das 14h45 do dia 10, a neve começou a cair intensamente e o Anderson perdeu de vista o Fitz. Menos de uma hora depois, o capitão McSorley contatou Cooper para informar que o Edmund Fitzgerald estava sendo tomando por água.
“Anderson, aqui é o Fitzgerald,” disse McSorley conforme registrado no site dedicado ao navio. “Sofri alguns danos na superestrutura. Uma das longarinas da cerca caiu, duas aberturas de ventilação foram perdidas ou danificadas e estou adernando. Estou verificando a profundidade. Você pode ficar ao meu lado até eu chegar a Whitefish?”
Os dois cargueiros começaram a se dirigir para Whitefish Bay na costa da Península Superior de Michigan, na esperança de encontrar abrigo da tempestade brutal. A última comunicação enviada pelo Fitz ao Anderson ocorreu por volta das 19h. Cooper perguntou a McSorley: “Fitzgerald, como está o seu problema?”
“Estamos nos mantendo firmes,” respondeu McSorley. No entanto, essa foi a última mensagem registrada do SS Edmund Fitzgerald, antes que o navio desaparecesse dos radares.
De acordo com uma edição da revista Telescope, publicada em 2005 pelo Instituto Marítimo dos Grandes Lagos, Cooper contatou a Guarda Costeira logo após o desaparecimento do Fitz dizendo: “Estou muito preocupado com o bem-estar do navio a vapor Edmund Fitzgerald. Ele estava bem à nossa frente, com um pequeno problema. Estava entrando um pouco de água e nenhum dos navios que subiam o ultrapassou. Não consigo ver as luzes como antes e não o tenho no radar. Só espero que ele não tenha mergulhado de proa.”
Tragicamente, as palavras de Cooper revelaram-se proféticas; parece que o Fitz afundou tão rapidamente que McSorley não teve tempo nem mesmo para emitir um pedido de socorro.

Mistérios
Embora esteja claro que a tempestade violenta provocou o naufrágio do Fitz, existem diferentes teorias sobre os motivos exatos que levaram à tragédia. A baixa visibilidade causada pela neve pode ter levado o navio a navegar acidentalmente por águas rasas, resultando em danos estruturais. Outra teoria sugere que ondas irregulares teriam derrubado o Edmund Fitzgerald naquela ocasião.
No entanto, quando o Conselho Nacional de Segurança no Transporte (NTSB) publicou sua investigação em 1978, observou que “a causa provável deste acidente foi o alagamento repentino e maciço do porão de carga devido ao colapso de uma ou mais tampas de escotilha.”
Poucos dias após o naufrágio do Edmund Fitzgerald, um avião da Marinha dos EUA sobrevoou Lago Superior procurando anomalias magnéticas e detectou uma inconsistência cerca de 27 quilômetros ao largo do Ponto Whitefish, Michigan. Meses depois, um veículo subaquático operado remotamente capturou imagens impressionantes dos destroços naquele exato local; era claramente visível o nome “Edmund Fitzgerald” no casco da embarcação.
A embarcação foi localizada a 162 metros abaixo da superfície do Lago Superior e havia se partido ao meio; a proa estava ereta enquanto a popa repousava virada para baixo, no fundo do lago. No entanto, não havia sinal dos 29 tripulantes que pereceram na tragédia; duas décadas depois, em 1994, os restos mortais de um homem foram encontrados nas proximidades, mas permaneceram intocados em seu leito aquático.
O SS Edmund Fitzgerald foi o maior navio já afundado nos Grandes Lagos e se juntou aos milhares de outros barcos que naufragaram na região ao longo dos séculos. Em contraste com outros naufrágios famosos como o SS Arlington ou o SS Western Reserve — ambos ocorridos no Lago Superior — ainda existem muitas descobertas sendo feitas nas profundezas aquáticas pelos mergulhadores.
Contudo, permanece inegável que o Fitz é talvez o mais célebre entre todos os navios perdidos nos Grandes Lagos; isso se deve em parte à canção “The Wreck of the Edmund Fitzgerald”, composta por Gordon Lightfoot após ler reportagens sobre o naufrágio: “Em um velho salão mofado em Detroit, eles rezaram na Catedral dos Marinheiros. O sino da igreja tocou até soar 29 vezes para cada homem a bordo do Edmund Fitzgerald”, diz parte da letra. Em outro momento: “Tudo o que resta são os rostos e os nomes das esposas, dos filhos e das filhas”.