Quadro de Gustav Klimt roubado pelos nazistas pode ser leiloado em breve

Retrato de uma jovem herdeira pintado por Klimt foi roubado por nazistas, e agora deve ser leiloado por mais de US$ 150 milhões

'Retrato de Elisabeth Lederer' e fotografia de Gustav Klimt / Crédito: Divulgação/Sotheby's / Getty Images

Um dos mais emblemáticos retratos do artista austríaco Gustav Klimt, conhecido como ‘Retrato de Elisabeth Lederer‘, está prestes a ser leiloado, com expectativas de que seu valor ultrapasse US$ 150 milhões (aproximadamente R$ 790 milhões, na cotação atual). Esta obra impressionante, que retrata uma jovem herdeira e possui quase dois metros de altura, foi roubada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e, por pouco, não foi destruída.

O quadro, que permaneceu na coleção do herdeiro da Estée Lauder, Leonard A. Lauder, até sua morte em junho deste ano, será o destaque do leilão organizado pela Sotheby’s na próxima semana. A venda não se limitará apenas a esta peça; a coleção de Lauder inclui ainda duas paisagens do Lago Attersee, também de Klimt, com estimativas entre US$ 70 e US$ 80 milhões (entre R$ 370 e R$ 420 milhões), o que poderá resultar em uma arrecadação total superior a US$ 400 milhões (cerca de R$ 2,2 bilhões).

O ‘Retrato de Elisabeth Lederer’, concluído em 1916, apresenta a jovem em um roupão delicado rodeada por elementos inspirados na arte chinesa. Embora menos conhecido em comparação a outras obras de Klimt, o retrato ocupou um lugar de destaque na residência de Lauder na Quinta Avenida em Nova York. O quadro foi exposto publicamente apenas algumas vezes ao longo das décadas, com aparições esporádicas no Museu de Arte Moderna e na Neue Galerie New York. Sua primeira exibição prolongada ocorreu em 2017, quando foi emprestado à Galeria Nacional do Canadá.

A pintura era considerada a joia da coleção de Lauder. Inicialmente exibida na sala de estar do magnata da beleza, ela foi posteriormente transferida para a sala de jantar para dar espaço a outra obra cubista. Segundo a historiadora de arte Emily Braun, que atuou como consultora para Lauder por quase quarenta anos, o retrato teve um papel significativo no cotidiano do colecionador: “Ele almoçava sempre que estava em casa, e o almoço era servido em uma pequena mesa redonda bem ao lado da pintura”.

Passado trágico

A poucos passos do Metropolitan Museum of Art, milhares de visitantes conhecem anualmente o retrato da mãe de Lederer, Serena. Embora separadas por aproximadamente quinze anos de diferença na produção, as duas obras contrastam em estilo; o retrato de Serena é etéreo, enquanto o de Elisabeth exibe características mais ousadas e vibrantes. Ambas compartilham um olhar profundo e intenso que marca as obras do artista.

O contexto histórico das pinturas é repleto de tragédias. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas confiscaram diversas obras da família Lederer. Enquanto muitos quadros foram perdidos ou destruídos, os retratos familiares foram poupados devido à sua exclusão da exposição por conta da herança judaica. Braun descreve Elisabeth Lederer como uma figura trágica, perdendo tudo antes da guerra e falecendo sob circunstâncias pouco claras antes do conflito terminar.

Após a guerra, o retrato foi devolvido ao irmão de Elisabeth e permaneceu com ele até sua morte. Em 1983, o comerciante Serge Sabarsky adquiriu a obra e dois anos depois vendeu-a para Lauder. O interesse pelo trabalho de Klimt por parte de Lauder se intensificou após uma exposição realizada pelo Museu Solomon R. Guggenheim em 1965.

Klimt é amplamente reconhecido por suas obras do período dourado, mas seu estilo evoluiu antes da morte em 1918. Suas influências tornaram-se mais fluidas e integradas à arte asiática. No caso do retrato de Lederer, elementos chineses foram incorporados como símbolos de poder; sabe-se que Klimt relutou em se desfazer dessa obra-prima que exigiu anos para ser finalizada.

Durante sua posse com Lauder, o título original da obra foi alterado para ‘Retrato da Baronesa Elisabeth Bachofen-Echt’. Contudo, Braun aconselhou Lauder sobre a necessidade de restaurar o título original, dado que Elisabeth era solteira na época em que posou para Klimt: “Eu disse ao Leonard: ‘Não está certo.’ Isso foi encomendado quando ela era solteira. Foi encomendado por sua família, e seu marido a tratou tão mal — por que estamos usando este título?”, disse Braun. “Então voltamos ao título original, e é assim que é chamado agora.”

Com a aproximação do leilão e as expectativas elevadas quanto ao valor final do retrato de Lederer, este evento promete marcar novamente a história das vendas artísticas e reavivar o legado do icônico Gustav Klimt, conforme repercute a CNN.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.