Cuba: Prisioneiros são forçados a produzir charutos e carvão
Relatório de ONG espanhola denuncia que mais de 60 mil presos cubanos são forçados a trabalhar em condições degradantes

Um novo relatório da organização espanhola Prisoners Defenders denuncia um sistema nacional e institucionalizado de trabalho forçado em prisões cubanas, com implicações diretas para os consumidores europeus.
De acordo com a ONG, pelo menos 60.000 prisioneiros são forçados a trabalhar com pouca ou nenhuma remuneração, sob ameaça de punições, em condições exaustivas e sem os equipamentos de segurança adequados.
Entre os produtos fabricados estão os icônicos charutos Habanos, vendidos no Reino Unido e em outros países da Europa, e o carvão de marabu, rotulado como “ecológico” e exportado principalmente para Espanha, Portugal, Itália, Grécia e Turquia.
A investigação, divulgada nesta segunda-feira, 15, é resultado de entrevistas realizadas entre abril e agosto de 2025 com 53 indivíduos de 40 prisões cubanas, além de mais 60 entrevistas cruzadas com documentos internos. Todos os participantes permaneceram anônimos para evitar represálias.
Os dados foram colhidos após um relatório do relator especial da ONU sobre escravidão, Tomoya Obokata, chamar atenção para o uso de trabalho forçado em Cuba.
Denúncias
As denúncias vão além da exploração econômica: 45% dos entrevistados relataram ter sofrido violência física durante o trabalho. Casos de assédio sexual e estupro também foram documentados, inclusive a falta de resposta institucional após uma detenta ser violentada por outro preso.
O relatório ainda aponta racismo estrutural nas prisões, indicando que afro-cubanos — embora representem cerca de 34% da população — correspondem a 58% dos encarcerados e são desproporcionalmente direcionados ao trabalho forçado mais pesado.
Em prisões como a de Quivicán (Aguacate), detentos relataram metas de produção de até 60 charutos manuais por dia, com contagem válida apenas se os produtos atingissem os padrões de exportação. A ONG estima que pelo menos 11,6 milhões de charutos por ano são produzidos nessas condições — o equivalente a 7,5% da produção anual cubana.
Apesar de não ser possível determinar com precisão quais marcas utilizam esses produtos, o relatório afirma que todas as principais marcas de charuto cubano estão envolvidas, incluindo a Cohiba, historicamente associada a Fidel Castro. A Corporación Habanos S.A., responsável por todas as exportações de charutos de Cuba, não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
Além de denunciar a situação aos órgãos internacionais, a ONG exige proibição da comercialização de produtos derivados de trabalho forçado e acesso internacional independente às prisões cubanas. Segundo o presidente da organização, Javier Larrondo, o governo cubano deve ser responsabilizado internacionalmente por crimes contra os direitos humanos.
O sistema prisional cubano não é um espaço de reabilitação, mas de punição, controle e exploração. E sua transformação estrutural é uma dívida para com a dignidade humana”, conclui o relatório.
Segundo o ‘The Guardian’, o governo cubano ainda não se pronunciou oficialmente sobre as denúncias.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli