Schinderhannes, famoso criminoso que viveu entre os séculos 18 e 19, virou uma figura lendária, sendo comparado a Robin Hood
Uma equipe interdisciplinar de cientistas desvendou recentemente um equívoco histórico de mais de dois séculos. Utilizando técnicas forenses avançadas, foi confirmado que um esqueleto, anteriormente identificado como pertencente ao criminoso "Schwarzer Jonas", é, na verdade, do infame fora-da-lei alemão Johannes Bückler, também conhecido como "Schinderhannes".
Dois anos após a morte de Bückler, o professor Jacob Fidelis Ackermann, da Universidade de Heidelberg, adquiriu os esqueletos de ambos os criminosos para estudos científicos. No entanto, no início do século 19, os rótulos de identificação foram trocados acidentalmente, dando origem a um erro que seria corrigido somente dois séculos mais tarde, em 2025.
Conforme destacou o portal Archaeology News, os restos mortais foram avaliados por uma equipe internacional especializada em diferentes áreas: pesquisa histórica, antropologia, exames radiológicos, testes isotópicos e análises de DNA. Os resultados foram divulgados em estudo publicado no Forensic Science International: Genetics.
Segundo Sara Doll, especialista da Universidade de Heidelberg, os resultados apontaram para a troca dos esqueletos, reforçada pela análise de isótopos, que indicou que o esqueleto identificado como Schwarzer Jonas era, na verdade, de Schinderhannes.
Testes de DNA mitocondrial confirmaram a conexão com um descendente vivo de quinta geração de Schinderhannes. Além disso, uma nova técnica genética identificou quase 5.000 marcadores de DNA nuclear, provando o vínculo familiar.
Os pesquisadores também reconstruíram a aparência do criminoso, indicando olhos castanhos, cabelos escuros e pele clara, corrigindo retratos históricos. O paradeiro dos restos mortais de Schwarzer Jonas, por outro lado, permanece desconhecido.
Visto por muitos fãs como o "Robin Hood alemão", Johannes Bückler tornou-se uma figura lendária. Como mencionou o site History Extra, a posteridade o retratou como alguém que infringiu a lei por motivos nobres ou altruístas, transformando-o em um símbolo.
Nascido no final do século 18 em Miehlen — embora a data exata seja incerta, com algumas fontes apontando 1778 e outras 1783 —, Bückler era filho de um desertor do exército empobrecido e de uma ladra. Desde cedo, envolveu-se no crime e, na adolescência, foi pego furtando peles do curtume onde era aprendiz.
E Bückler não parou por aí. Com o tempo, ele passou a cometer roubos e o assaltos à mão armada, espalhando terror pela Renânia. Seu apelido, Schinderhannes — derivava da palavra "schinder", que significa "esfolador".
A fonte destaca que, embora não esfolasse suas vítimas, Schinderhannes não era exatamente um Robin Hood. Na verdade, motivado principalmente pela ganância, ele aproveitou o sentimento antifrancês na região para construir uma imagem de herói folclórico e símbolo de resistência contra os invasores.
Em meio ao antissemitismo da época, o criminoso e sua gangue frequentemente tinham como alvo os judeus, explorando sua vulnerabilidade diante da lei. Um cúmplice, conhecido como Black Peter, chegou a matar um comerciante judeu por revelar seu caso com uma mulher casada.
Em 1799, Schinderhannes consolidou sua fama ao protagonizar uma fuga audaciosa de uma torre em Simmern. Com a ajuda de um guarda, que contrabandeou uma faca de cozinha, ele fez um buraco na porta de madeira e saltou do primeiro andar para o fosso, mesmo ferindo gravemente a perna. A fuga fez dele um herói popular, garantindo-lhe proteção de moradores e ampliando seu prestígio.
Por alguns anos, Schinderhannes conseguiu evitar a captura, mas sua sorte mudou em 1802. Após ser preso na torre Holztrum, em Mainz, ele tentou escapar da pena testemunhando contra seus próprios cúmplices, mas foi mantido preso por 16 meses, passando por vários interrogatórios.
Em outubro de 1803, durante o julgamento, Schinderhannes foi condenado à morte, com outros cúmplices. No dia 21 de novembro de 1803, o alemão foi o primeiro dos 20 condenados a ser guilhotinado, diante de uma multidão.
Mesmo após sua execução, a lenda de Schinderhannes continuou a crescer, inspirando romances, peças, filmes — como o dirigido por Helmut Käutner em 1958 — e até jogos de tabuleiro, perpetuando a figura contraditória do criminoso na cultura popular.