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“Ouro por toda parte”: por dentro do diário de Howard Carter sobre Tutancâmon

Anotações do arqueólogo britânico Howard Carter descrevem a descoberta da tumba intacta do faraó Tutancâmon no Vale dos Reis em 1922; confira!

Howard Carter observando o sarcófago de Tutancâmon / Crédito: Getty Images

Em novembro de 1922, uma descoberta arqueológica no Egito transformou para sempre a compreensão moderna sobre o Antigo Egito, e colocou o nome do arqueólogo e egiptólogo britânico Howard Carter no centro da atenção mundial. Após décadas de escavações no Vale dos Reis, Carter encontrou a tumba praticamente intacta do faraó Tutancâmon — um dos achados mais importantes da arqueologia do século 20. O diário do pesquisador, repleto de anotações detalhadas, oferece um raro vislumbre de como ocorreu esse momento histórico.

Anos de buscas

Antes da descoberta, Carter já era considerado um especialista em escavações egípcias. Ele havia passado cerca de trinta anos explorando túmulos antigos no país e trabalhava frequentemente sob o patrocínio do aristocrata britânico Lord Carnarvon, um rico colecionador de antiguidades. Carnarvon financiava as expedições de Carter no Vale dos Reis, região situada às margens do Rio Nilo e conhecida por abrigar os túmulos de faraós do Egito antigo.

Durante esse período, Carter residia em uma casa simples de tijolos de barro próxima ao local das escavações. Seu objetivo era localizar um túmulo que, segundo acreditava, ainda poderia guardar os restos mortais de Tutancâmon, um faraó da 18ª dinastia egípcia que reinou entre 1332 e 1323 a.C. A figura do chamado “Rei Tut” sempre despertou curiosidade entre os historiadores. Ele teria subido ao trono ainda criança, por volta dos nove ou dez anos de idade, e morreu jovem, possivelmente aos 18 anos.

Apesar da convicção de Carter, a busca se prolongava sem resultados conclusivos. Em 1922, Lord Carnarvon informou ao arqueólogo que financiaria apenas mais um ano de escavações. Caso nenhuma descoberta relevante fosse feita nesse período, o projeto seria encerrado.

Fotografias de Howard Carter / Crédito: Domínio Público

Descoberta da tumba

O tempo parecia estar se esgotando quando ocorreu o episódio que mudaria o rumo da pesquisa. Em 4 de novembro daquele ano, um aguadeiro que trabalhava com Carter tropeçou em uma série de degraus escondidos sob a areia. As escadas conduziam a um local que rapidamente despertou a atenção da equipe.

Carter percebeu imediatamente que poderia se tratar de uma descoberta significativa. Ele enviou um telegrama a Lord Carnarvon informando sobre o achado. Pouco tempo depois, o patrocinador chegou ao Egito acompanhado de sua comitiva para acompanhar a escavação.

O momento da abertura da tumba ficou registrado nas anotações do próprio Carter. Segundo ele, suas mãos tremiam enquanto retirava os primeiros bloqueios de pedra diante de Carnarvon. Ao observar o interior pela primeira vez, descreveu a experiência em seu diário.

“A princípio, não conseguia ver nada, o ar quente que escapava da câmara fazia a chama da vela oscilar”, escreveu Carter mais tarde, “mas logo, à medida que meus olhos se acostumavam à luz, detalhes do interior da sala emergiram lentamente da névoa: animais estranhos, estátuas e ouro — o brilho do ouro por toda parte.”

Howard Carter na tumba de Tutancâmon / Crédito: Domínio Público

A reação do arqueólogo foi de espanto. Diante da demora em obter uma resposta, o ansioso Lord Carnarvon perguntou: “Você consegue ver alguma coisa?” Carter, ainda impressionado com a cena diante de si, respondeu: “Sim, coisas maravilhosas!”

O que eles haviam encontrado era uma tumba extraordinariamente bem preservada. Diferentemente de muitos outros sepulcros do Vale dos Reis, frequentemente saqueados ao longo dos séculos, o local permanecia praticamente intacto.

Exploração profunda

O trabalho de exploração da tumba prosseguiu por meses. Cerca de um ano e meio após a descoberta inicial, a equipe conseguiu acessar a câmara funerária principal. No interior, foram encontrados santuários revestidos de ouro, além de baús decorados com joias e outros artefatos preciosos.

Quando os pesquisadores abriram o sarcófago de Tutancâmon, descobriram um caixão feito de ouro puro. Dentro dele estavam os restos mumificados do jovem faraó, preservados por mais de três mil anos.

A descoberta rapidamente ganhou destaque internacional. Jornais de diversos países passaram a noticiar o achado, que despertou enorme interesse público. A tumba de Tutancâmon tornou-se um símbolo do fascínio mundial pelo Egito antigo, e Howard Carter passou a ser visto como uma celebridade da arqueologia.

Howard Carter e membros de sua equipe resselando a tumba de Tutancâmon / Crédito: Getty Images

Maldição da múmia?

No entanto, os acontecimentos que se seguiram também alimentaram uma narrativa que se tornaria famosa na cultura popular. Enquanto ainda estava no Egito, Lord Carnarvon sofreu uma picada de mosquito que acabou infectando. A infecção evoluiu rapidamente e ele morreu cerca de três semanas depois.

A morte do aristocrata deu origem a especulações entre jornalistas da época, que passaram a relacionar o episódio à chamada “Maldição da Múmia” — uma suposta vingança sobrenatural associada à violação de túmulos antigos.

A ideia da maldição rapidamente se espalhou e se tornou um tema recorrente em reportagens e histórias populares. Com o tempo, o episódio inspiraria também filmes e narrativas de ficção em Hollywood, contribuindo para consolidar o mito em torno da descoberta, repercute a Smithsonian Magazine.

Legado histórico

Apesar dessas interpretações sensacionalistas, o legado científico da descoberta permaneceu. As anotações detalhadas de Carter, registradas em seus diários e em publicações posteriores, documentaram minuciosamente cada etapa da escavação. Fotografias, registros escritos e documentários produzidos na época ajudaram a preservar informações sobre o que muitos consideram a descoberta arqueológica mais emocionante do século 20.

Esses registros continuam sendo uma fonte importante para pesquisadores interessados na história do Egito antigo e nas circunstâncias da descoberta da tumba de Tutancâmon. Ao lado dos artefatos encontrados no local, os escritos de Carter oferecem um retrato detalhado do momento em que um dos maiores tesouros arqueológicos do mundo voltou à luz após milênios enterrado sob a areia do deserto.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.