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Obra de Da Vinci? O enigma que envolve o quadro da Mona Lisa nua

Quadro que apresenta uma mulher nua da cintura para cima é o centro de um grande enigma em razão de sua similaridade com a Mona Lisa de Da Vinci

A Mona Lisa nua e a versão mais famosa, de Leonardo da Vinci - Crédito: Getty Images

A Mona Lisa é certamente o quadro mais famoso da história. Datado do início do século 16, o famoso retrato apresenta uma mulher sentada, com as mãos cruzadas e um sorriso sutil e ambíguo. Ela veste roupas escuras e é envolvida por uma paisagem distante e quase onírica, de montanhas, rios e caminhos sinuosos.

Mas, no século 18, uma gravura publicada pelo editor John Boydell, apresentou uma versão um tanto singular da conhecida figura. O que havia de diferente era que, da cintura para cima, a mulher não vestia nada. A legenda que acompanhava a obra afirmava tratar-se de uma reprodução de uma pintura de “Leonardo da Vinci“, então exposta na Galeria de Houghton, propriedade de Sir Robert Walpole — o primeiro primeiro-ministro da Grã-Bretanha e também um dos mais vorazes colecionadores de arte de seu tempo. Inclusive seu filho, Horace Walpole, acreditava que aquela era a verdadeira Mona Lisa.

“A Gioconda, esposa de um ferreiro, considerava a mulher mais bonita de seu tempo: ela foi amante de Francisco I, rei da França; por Leonardo da Vinci. Ela frequentemente se sentava seminua, com músicos, por várias horas juntos, para ser desenhada por ele”, afirmava Horace.

A cena pode ser comparada ao relato clássico de Giorgio Vasari, que escreveu, em 1550, que Leonardo recorria a cantores e bufões para provocar o sorriso da modelo durante as sessões.

Seguidor anônimo?

Hoje, essa Gioconda nua não está mais em Houghton. Em 1779, a coleção Walpole foi vendida à imperatriz Catarina, a Grande, e levada para a Rússia. A pintura sobrevive no Hermitage, em São Petersburgo, mas perdeu sua atribuição direta a Leonardo. Na verdade, hoje acredita-se que seja obra de um seguidor anônimo do século 16. Ainda assim, fica a questão: se a obra for realmente de um imitador de Leonardo, havia uma Mona Lisa nua dele para imitar? Se houve, por qual motivo o artista a pintou e para quem?

Jonathan Jones, crítico de arte do portal The Guardian, aponta que, para responder a essas perguntas, é preciso seguir o rastro do artista até o vale do Loire, onde Leonardo passou seus últimos anos como pintor da corte francesa. Em outubro de 1517, ele recebeu em sua residência o cardeal Luís de Aragão e o cronista Antonio de Beatis. Leonardo mostrou-lhes três pinturas. Duas eram religiosas. A terceira, segundo De Beatis, retratava “uma certa mulher florentina, retratada em vida, a pedido do falecido Magnífico Giuliano de’ Medici”.

Duas versões

Costuma-se assumir que essa obra era a Mona Lisa hoje exposta no Louvre. Mas para Jonathan Jones, isso não fecha. De acordo com o escritor, documentos comprovam que o retrato de Lisa del Giocondo foi iniciado em Florença em 1503, muito antes de Giuliano de’ Medici se tornar patrono de Leonardo. Lisa, esposa de um comerciante de seda, era uma mulher da classe média florentina — exatamente como Vasari descreveu. Então por que Leonardo mencionaria Giuliano? Talvez porque não estivesse dizendo a verdade. Na visão de Jones, ele não pintou a Mona Lisa vestida para Giuliano. Mas pode ter pintado outra versão — nua.

Em 1513, Leonardo deixou Milão e seguiu para Roma, onde Giuliano lhe concedeu um ateliê no Belvedere papal. Embora o papa não lhe confiasse grandes encomendas públicas, Leonardo poderia dedicar-se a trabalhos mais privados. É desse período que surge uma peça fundamental do quebra-cabeça: um grande desenho preparatório preservado em Chantilly, na França.

Esse desenho, datado de cerca de 1514 a 1516, mostra uma mulher sentada, nua da cintura para cima, em uma pose imediatamente reconhecível. O antebraço esquerdo repousa horizontalmente; a mão direita se apoia suavemente sobre o pulso oposto. A inclinação do tronco, a posição dos dedos, o giro sutil do corpo — tudo replica com precisão a Mona Lisa. Em 2017, análises técnicas do Louvre indicaram que o desenho foi feito, ao menos em parte, pela mão esquerda de Leonardo. Isso muda tudo.

A Mona Lisa e o artista

O artista que produziu o nu de Chantilly não apenas conhecia a Mona Lisa: ele tinha acesso direto a ela. Leonardo carregava o retrato consigo, jamais o entregando ao marido da modelo. Pequena e portátil, a pintura o acompanhou por cidades e cortes. Com o passar dos anos, Leonardo a modificou tanto que ela deixou de ser apenas um retrato — tornou-se uma figura idealizada.

A pintura de Houghton, portanto, parece derivar desse desenho — ou de uma pintura hoje perdida baseada nele. Em outras palavras, tudo indica que Leonardo, talvez com auxílio de seus alunos, criou uma Mona Lisa nua.

A pista decisiva

Mas, para o crítico, ainda há mais. O autor acredita ter encontrado uma pista crucial. No Palácio Barberini, em Roma, está pendurada a obra La Fornarina, de autoria de Rafael. Pintada por volta de 1520, ela mostra uma jovem sentada em um jardim, sorrindo de lado, com os seios nus e usando um véu translúcido de seda. A pose, a expressão, o clima íntimo, tudo remete à obra de Leonardo. Isso, na visão do autor, indica que Rafael, grande admirador do mestre mais velho, conhecia a Mona Lisa desde Florença e certamente visitou Leonardo em Roma. Para ele, é difícil acreditar que essa semelhança seja acidental.

Afinal, La Fornarina parece traduzir uma ideia radical já lançada por seu mestre: a transposição da Mona Lisa para o nu. Essa inovação se espalhou rapidamente, influenciando artistas como Giulio Romano, Ticiano e Correggio, e transformando a maneira como o corpo feminino passou a ser representado no alto Renascimento.

Leonardo, que já havia criado obras eróticas hoje perdidas, como Leda e o Cisne, não via contradição entre perfeição artística e sensualidade. Assim, se ele pintou uma Mona Lisa nua, isso revela um artista plenamente consciente do poder de sua criação, tão seguro de sua singularidade que ousou reinventá-la.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.