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Múmia de Tutancâmon foi decapitada e desmembrada após sua descoberta

Tumba de Tutancâmon foi aberta em fevereiro de 1923; posteriormente, arqueólogos, ao analisarem a múmia do faraó, cortaram sua cabeça e membros

O egiptólogo britânico Howard Carter (1874 - 1939) (à esquerda) com seu assistente Arthur Callender nos degraus que levam à entrada do túmulo do faraó Tutancâmon em 1922; à direita, a cabeça decepada do Rei Tut - Crédito: Getty Images; Griffith Institute

A descoberta da tumba de Tutancâmon pela equipe do arqueólogo Howard Carter, ocorrida no ano de 1922, é considerada um dos maiores achados da arqueologia, sendo, desde o início, muito comemorada por profissionais e entusiastas. A câmara seria aberta pouco depois, em 16 de fevereiro de 1923. Era a primeira parte do que se tornaria uma escavação de uma década. A ocasião da descoberta inicial da tumba geraria uma grande onda de fascínio popular pela arqueologia egípcia, um fenômeno que receberia o nome de “tutmania”

Foi justamente por se tratar de um trabalho meticuloso, e também em razão de atritos entre Carter e o governo egípcio, que os restos mortais do Rei Tut foram revelados apenas no ano de 1925.

Mas os métodos usados na análise dos restos mortais eram questionáveis: a equipe de Howard Carter usou facas quentes e força bruta, decapitando o faraó e cortando seus membros e torso. Posteriormente, encobriram a situação.

Descoberta no Vale dos Reis

Quando os arqueólogos finalmente abriram o caixão onde repousavam os restos mortais de Tutancâmon, se depararam com algo inesperado: o corpo do faraó havia se fundido ao caixão em razão de uma substância preta endurecida. A resina havia sido derramada sobre as faixas do faraó durante o sepultamento a fim de que seu corpo fosse protegido da decomposição.

O cadáver estava “firmemente preso”, observou Carter na época, apontando que “nenhuma quantidade de força legítima” poderia libertá-lo. Por esse motivo, os especialistas tentaram desesperadamente amolecer a resina expondo o caixão ao calor do sol. Mas a tentativa fracassou, o que levou os especialistas a recorrerem a facas quentes. Foi assim que o faraó menino teve a cabeça e a máscara funerária removidos.

A autópsia realizada a seguir se mostraria devastadora. Afinal, Tut ficou “decapitado, com os braços separados nos ombros, cotovelos e mãos, as pernas nos quadris, joelhos e tornozelos, e o tronco cortado da pelve na crista ilíaca”. Posteriormente, os arqueólogos macabramente colaram os restos mortais do governante egípcio a fim de simular um corpo intacto.

A cabeça decepada de Tutancâmon em fotografias de Harry Burton – Crédito: Divulgação/Instituto Griffith

Detalhes omitidos

Mesmo na época do ocorrido, os feitos da equipe eram questionáveis e, como mencionou a egiptóloga Joyce Tyldesley, a destruição do corpo de Tutancâmon ficou ausente do relato público de Carter sobre a autópsia. Mesmo em seus registros privados de escavação, que estão disponíveis no Griffith Institute da Universidade de Oxford, o arqueólogo optou por omitir detalhes.

Para Tyldesley, o silêncio de Carter acerca dos métodos utilizados na autópsia pode refletir tanto um encobrimento deliberado quanto uma tentativa de preservar a dignidade do faraó. Entretanto, apesar desses esforços, as ações feitas pelos pesquisadores foram documentadas em imagens feitas por Harry Burton, que era fotógrafo arqueológico.

Em algumas das fotografias feitas por Burton, é possível ver o crânio de Tutancâmon empalado. O método era utilizado com a finalidade de mantê-lo ereto para fotografia. Conforme apontou a professora da Universidade de Birmingham, Eleanor Dobson, em artigo publicado no portal The Conversation, esses registros contrastam com a imagem que Carter escolheu passar no segundo volume de sua obra detalhando as escavações, “O Túmulo de Tut-Ankh-Amen”. Na obra, datada de 1927, o egiptólogo apresenta uma imagem mais palatável para o público: cabeça do faraó surge envolta em tecido, de modo a ocultar a coluna vertebral cortada.

Uma visão mais crítica

Como propõe Dobson, vale a pena, ao refletirmos sobre esse exame, reconsiderar o legado da escavação de Carter, isto é, não tratando-a como um simples marco na egiptologia, mas como um momento de acerto de contas ético. Em sua visão, a mutilação do corpo do Rei Tut é um convite para que avaliemos narrativas de triunfo arqueológico e olhemos para o passado de maneira mais crítica.

“Hoje foi um grande dia na história da arqueologia”, escreveu Carter em seu diário de escavação no dia 11 de novembro de 1925. No entanto, as evidências existentes sugerem uma situação moralmente complicada.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.