Leonice Fitz: o curioso caso da ‘Garota Poltergeist’ no Rio Grande do Sul
Relatos de telecinesia, barulhos misteriosos e objetos em movimentos renderam a Leonice Fitz o apelido de "Garota Poltergeist" na década de 1980, em um caso que divide opiniões até hoje

A história de Leonice Fitz, conhecida como a “Garota Poltergeist”, marcou a região de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul, e ganhou projeção nacional no fim da década de 1980. O caso, que envolvia supostos fenômenos inexplicáveis atribuídos à adolescente, atravessou décadas sem uma explicação definitiva — seja do ponto de vista científico ou sobrenatural. Leonice morreu em 26 de junho de 2010, aos 35 anos, vítima de câncer ósseo, mas sua trajetória permanece cercada de mistério e controvérsia.
Os fenômenos começaram a chamar atenção em 1987, quando a jovem tinha 13 anos e vivia com a família na localidade rural de Rincão da Boa Vista. Segundo relatos publicados à época, episódios estranhos passaram a ocorrer dentro da residência: papéis picados surgiam sob a cama, ruídos eram ouvidos nas paredes, lâmpadas estouravam e objetos, como baldes com água, se moviam sem explicação aparente. A mãe, Ema Fitz, afirmou posteriormente que já percebia diferenças no comportamento da filha desde a infância.
A situação ganhou ampla repercussão em 1988, quando o caso foi noticiado pela imprensa e exibido em rede nacional pelo Fantástico. Imagens que circularam posteriormente, inclusive nas redes sociais, mostram a adolescente deitada enquanto o colchão se movimenta e a coberta parece se agitar sobre seu corpo. Naquele mesmo ano, chegou a ser noticiado que as chamadas “manifestações paranormais” teriam cessado após a intervenção do padre Edvino Friderichs, descrito como parapsicólogo jesuíta. No entanto, décadas depois, a própria Leonice afirmou que ainda era capaz de provocar tais fenômenos: “Se quiser, desligo aquela lâmpada, eu desligo. Mas tenho medo de fazer isso e não parar mais. Aí, quem vai me ajudar?”
Durante o auge do caso, moradores da região e profissionais da imprensa buscaram entender o que ocorria. O radialista Luís Evandir Rodrigues da Rosa, conhecido como Chico, relatou que a família procurou ajuda após prejuízos causados pelos episódios dentro de casa. Segundo ele, a adolescente frequentemente quebrava objetos e já não frequentava a escola, devido ao medo que suas ações causavam em colegas.
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Fenômenos
Chico passou a visitar a residência com outros colegas e afirmou ter testemunhado fenômenos que considerou inexplicáveis. Em um dos relatos, descreveu uma cena em que um baú pesado, sobre o qual ele e sua então esposa estavam sentados, teria se elevado do chão. “Eu e a minha ex-mulher estávamos sentados em um baú daqueles antigos, uns 30 quilos. E aí começamos a ver a cena… meu Deus, de repente o baú levantou, onde eu e a minha ex-mulher estávamos sentados. Ele começou a flutuar uns 30 centímetros.” Em outra ocasião, disse ter visto um ovo girar no ar antes de se chocar contra a parede. “O que eu vi, as cenas que eu vi a Leonice fazer, eu não vou me esquecer nunca mais na minha vida e acho que nunca mais vou ver isso”, afirmou.
Apesar das manifestações, o radialista descreveu Leonice como uma jovem simples, de origem humilde, com comportamento considerado ingênuo. Segundo ele, a família vivia isolada e enfrentava dificuldades para lidar com a situação. A casa onde moravam já não existe mais, embora parte da estrutura ainda permaneça no local.
Outros profissionais que estiveram na residência também relataram experiências marcantes. O jornalista Elodio Zorzetto, que visitou o local na época, descreveu a adolescente como tímida e visivelmente assustada com o que ocorria. Ele recorda que, durante uma entrevista, Leonice foi incentivada a demonstrar suas supostas habilidades. Deitada na cama e coberta até o pescoço, o colchão teria se elevado em um dos lados, enquanto a coberta se movia. Em seguida, sons de arranhões nas paredes foram ouvidos dentro da casa. “Um jornalista disse para o outro: ‘Dá uma olhada para o lado de fora, se tem alguém ali arranhando’. Um, não lembro quem, correu, olhou e disse: ‘Não, não tem nada aqui, não tem nada’”, relatou.
Para Zorzetto, a família não buscava notoriedade, mas sim ajuda. Ele interpretou a exposição do caso como um pedido de socorro diante de uma situação que alterava profundamente a rotina doméstica. “Eu vi que as pessoas da família eram simples, humildes e muito preocupadas com a vida da filha porque eles não sabiam o que ia acontecer. Ela queria uma vida normal, então queria ajuda. Era esse o objetivo deles, eram pessoas que queriam a vida normal, como os outros. E ela não tinha a vida normal e a família não tinha a vida normal. Tanto que eles meio que se isolaram e não se integravam à comunidade e tal por causa disso”, afirmou.

Intervenção religiosa
Com a repercussão crescente, o padre Edvino Friderichs foi chamado para avaliar o caso. À época, ele classificou os fenômenos como “um caso normal e corriqueiro de parapsicologia”, explicando que fenômenos como telecinesia — a capacidade de mover objetos com a mente — poderiam existir, embora nem todas as pessoas fossem capazes de manifestá-los. O religioso afirmou ter conduzido sessões de relaxamento com a adolescente, baseadas em sugestões ao inconsciente. “Conduzi-a, em espírito, para um lugar ameno, fazendo-a imaginar uma linda fazenda, com a vista de um morro com plantas, um lago, arbustos e flores”, disse.
Mesmo após essa intervenção, relatos indicam que os fenômenos continuaram e, em alguns momentos, teriam se intensificado. Segundo registros da época, objetos cortantes chegaram a aparecer próximos à jovem enquanto ela estava na cama. A família voltou a procurar o padre, desta vez em Porto Alegre, onde ele residia. Durante o tratamento, Leonice recebeu orientações para se distrair, manter pensamentos positivos e acreditar na própria cura. O religioso também apontou que a jovem não compreendia a gravidade da situação: “O problema é que ela acha graça quando isso acontece, sem levar em conta que se trata de um desequilíbrio físico e psíquico”.
A notoriedade do caso atraiu grande número de curiosos à residência da família, o que gerou transtornos. Em determinado momento, foi necessário restringir o acesso ao local, com familiares chegando a expulsar visitantes. Relatos da mãe da jovem indicam ainda que os fenômenos incluíam respostas a comandos verbais: “A gente perguntava o que que era, aquilo respondia, falava, não era ela. A gente dizia ‘bate uma vez’, batia. ‘Bate duas vezes’, batia. ‘Bate três vezes’, batia três vezes. ‘Para’, parou.”
Últimos anos de Leonice Fitz
Na vida adulta, Leonice buscou retomar uma rotina considerada comum. Trabalhou como empregada doméstica e posteriormente passou a atuar em um tipo de consultório espiritual. Ela também se casou e deixou a área rural, passando a viver em uma região mais central de Santa Rosa, conforme repercute o portal Gaúcha ZH.
Apesar da passagem do tempo, o caso continua a provocar interpretações divergentes. Para alguns, trata-se de um episódio de natureza sobrenatural; para outros, de um fenômeno ainda não compreendido sob a ótica científica. Nenhuma explicação conclusiva foi apresentada.
14 anos após a repercussão do caso, a jornalista Rosane Marchetti — que fez a fatídica reportagem sobre a jovem para o Fantástico em 1988 — comentou as suspeitas em torno do episódio, bem como a ausência de provas de se tratar de um fenômeno paranormal: “Eu lembro que vi essa menina deitada na cama, e o que mais me chamou a atenção é que eu não pude entrar no quarto antes que ela estivesse deitada na cama. E ela também não saiu da cama até que eu saísse do quarto. Então a gente fica cheio de dúvidas.”
— venus (@brtneywspears) March 21, 2026
Nos últimos anos de vida, Leonice demonstrava desconforto ao revisitar o episódio que a tornou conhecida nacionalmente. Em entrevista concedida pouco antes de sua morte, ela expressou o peso de ter vivido sob os holofotes e refletiu sobre sua própria condição: “Por que tive que ser diferente dos outros?”