Jovem Nerd: “Não existe nada cultural que não tenha tempero ou viés político”
Em entrevista ao Aventuras, Alexandre Ottoni fala sobre seu novo filme ‘A Própria Carne’ e debate a relação entre política e cultura nerd; confira!

Quando George Lucas começou a escrever o roteiro de um longa de ficção científica sobre um grupo de rebeldes que lutavam contra um governo corrupto, o julgamento do caso Watergate estava apenas começando — tudo isso aconteceu em 1973, um ano antes de Richard Nixon renunciar ao cargo de presidente americano e quatro anos antes da estreia de ‘Star Wars: Uma Nova Esperança’ (1977).
O enredo da trilogia original refletia a política árdua daquele momento. O conflito entre o Império (um regime autoritário, supremacista e militarizado por um ditador) e a aliança rebelde (que era composta por aqueles que lutavam contra todas as imposições) carregava o pensamento ideológico que Lucas tinha a respeito de uma autoridade opressora.
O próprio diretor chegou a admitir isso em alguns momentos. Em entrevista ao Chicago Tribute, em 2005, ele declarou: “Foi realmente sobre a Guerra do Vietnã, e esse foi o período em que Nixon estava tentando concorrer a um [segundo] mandato, o que me levou a pensar historicamente sobre como as democracias se transformam em ditaduras. Porque as democracias não são derrubadas; elas são entregues”.

A Guerra do Vietnã também serviu de inspiração para outra grande obra literária e cinematográfica: Jogos Vorazes, de Suzanne Collins.
Ao The Guardian, ela relatou que possui uma relação um tanto quanto pessoal com a guerra e a mídia, afinal, seu pai passou sua carreira na Força Aérea dos EUA e serviu na Guerra do Vietnã.
Minha mãe tentou muito nos proteger, mas ocasionalmente depois dos desenhos animados da tarde de qualquer coisa que estivesse passando… o noticiário noturno passava e eu via imagens da zona de guerra e ouvia a palavra Vietnã e eu sabia que meu pai estava lá e era uma experiência muito assustadora para mim”, relatou.
Política e história, mesmo que de forma não muito explícita, fizeram e sempre farão parte de grandes produções da indústria popular. Não são em obras estrangeiras, mas também em produções nacionais.
Exemplo disso é o lançamento de ‘A Própria Carne’, longa de terror brasileiro ambientado durante a Guerra do Paraguai; que estreou na rede Cinemark no último dia 30 de outubro.
Dirigido por Ian SBF (um dos criadores do Porta dos Fundos) e produzido por Deive Pazos e Alexandre Ottoni (do Jovem Nerd), a produção acompanha a chegada de três soldados desertores em uma casa isolada na floresta.
O que parecia ser um refúgio seguro logo se torna um cenário de pesadelo, conforme os fugitivos descobrem que o fazendeiro misterioso e a jovem que moram no local escondem segredos macabros.
“Três soldados desertores durante a Guerra do Paraguai, em 1870, cada um lutando pela sobrevivência à sua maneira, encontram uma casa isolada na fronteira, habitada apenas por um fazendeiro misterioso e uma jovem. O que parecia ser um refúgio seguro se transforma em um pesadelo aterrorizante quando os soldados descobrem que a casa esconde segredos macabros, confrontando-os com um destino ainda mais horrível do que a guerra da qual fugiram”, apresenta a sinopse do filme.
Em entrevista exclusiva à equipe do Aventuras, Alexandre Ottoni, o Jovem Nerd, falou sobre a relação da política com a cultura nerd. Leia abaixo na íntegra!
++ A Própria Carne: Filme de terror brasileiro traz ambientação na Guerra do Paraguai
Dentro da cultura pop, temos filmes que trazem essa parte política para o debate. Qual a importância de a gente usar o público nerd, usar a juventude de hoje em dia para discutir a nossa história, o nosso passado?
Alexandre Ottoni: “Eu costumo dizer bastante, principalmente ultimamente, que não existe nada cultural que não tenha tempero político ou viés político. A política é parte essencial das relações humanas e a ideia de que existem coisas apolíticas, cultura isenta ou qualquer tipo de noção disso — do ‘não põe a política nos meus filmes, nos quadrinhos’ — é simplesmente uma ilusão desenhada para ser assim, de que você não deveria gostar de política por causa disso.
Então as pessoas acham que política é só o ato de estar em um plenário de terno e gravata discutindo, votando… A política é a forma como a gente vive, como se expressa, como as artes se apresentam para as pessoas. São todos produtos das mentes dos autores, nas suas épocas, que estão refletindo sobre o mundo ou, se não estiverem refletindo sobre o mundo, estão imbuídos do ambiente político que cerca as pessoas. Porque é isso que faz a nossa percepção de mundo. Isso que cria a nossa linguagem.
Acho que a primeira coisa que eu posso falar é: mesmo que você não queira colocar política na sua obra, ela estará cheia de política porque é como você interpreta o mundo e você cria. Isso é óbvio na nossa obra.
É óbvio que a gente quis tocar nos assuntos que são assuntos sensíveis para a história do Brasil. São assuntos que valem a pena serem ressaltados mais uma vez. A gente mostra o racismo da época no filme, sim, latente, mas refletir e observar o racismo daquela época faz a gente entender o racismo que existe hoje e por que ele existe hoje estruturado da forma que é. E por que a nossa sociedade foi construída e tem os moldes da sociedade que é. Isso está lá atrás, isso dá história à parte de você entender por que o mundo é como é hoje.
Estou aqui pregando para o coro, está todo mundo aqui convertido nesse sentido, mas eu digo isso em relação a como é importante a gente manter um discurso sóbrio, mas instigante em todas as nossas obras.
Porque a gente aprende o negócio e acho que todo mundo aprendeu. Não, mas tem toda uma nova geração que não sabe o que está rolando. Tem toda uma nova geração que a gente tem que falar: ‘gente, olha só, preste atenção, nazismo é ruim’. Tem que falar. Tem que falar todo dia. Parece que é meio bizarro ter que falar o óbvio, mas é aquele negócio, tem que falar o óbvio. ‘E por que é ruim?’. Por causa disso, daquilo, etc. ‘Por que existem nazistas hoje?’. Tudo isso está imbuído na nossa cultura, na nossa história, etc.
E essas discussões, por mais que elas façam parte de uma outra história que está levando você para se divertir, para você que gosta de filme de terror — e você vai —; esse é um filme que vai agradar quem gosta de filme de terror e que pode agradar ainda mais quem não tem contato muito com o gênero.
E quem gosta de história, quem gosta de filmes que têm múltiplas camadas de compreensão. A gente imbuiu o filme de tudo isso.
E com essa vontade de que a gente não só está fazendo um produto cultural, a gente está fazendo algo que vai fazer parte da iniciação de alguém na história do Brasil. Ou da ressignificação da história do Brasil. Ou da percepção de coisas que a pessoa não tinha se atentado antes.
Então, claro, tem o divertimento, tem o terror, tem o gore, tem o sangue, etc. Mas, como o Ian falou, a opressão é o tema principal desse filme e ela nunca deixou de existir. Ela só muda de forma, de nome. E é bom que a gente tenha contato com esse tipo de mensagem em todo tipo de cultura. Para que a gente impeça de acontecer o que está acontecendo”.