Gucci, Versace e outros: Os escândalos por trás do luxo

Grifes que moldaram a história da moda também carregam episódios de abuso de poder, preconceito e excessos

Versace, Mike Jeffries e John Galliano - Getty Images

Durante décadas, o universo da moda foi apresentado como sinônimo de criatividade, elegância e genialidade, um ramo onde talento e visão pareciam caminhar sempre de mãos dadas. Por trás das vitrines, dos desfiles milimetricamente coreografados e das campanhas que moldaram desejos ao redor do mundo, existe, no entanto, uma camada menos visível dessa história. Grandes grifes que ajudaram a definir épocas, comportamentos e estilos também carregam episódios marcados por controvérsias, crimes sexuais, assassinatos e até mesmo desaparecimento.

Ao revisitar a trajetória dessas casas lendárias, torna-se impossível ignorar como sucesso e escândalo frequentemente se entrelaçam. Aqui, a intenção não é desmontar mitos nem reduzir trajetórias a seus momentos mais controversos, mas relembrar que a história da moda foi escrita também por decisões ambíguas, alianças incômodas e escolhas que hoje despertam questionamentos.

1. Sangue na casa Gucci

Nascida em 1948, nos arredores de Milão, Patrizia Reggiani cresceu longe do luxo que mais tarde se tornaria sua marca registrada, em uma infância marcada pela ausência do pai biológico e pelo trabalho modesto da mãe como garçonete. A virada em sua vida ocorreu ainda na adolescência, quando a mãe se casou com um empresário bem-sucedido do setor de transportes, introduzindo Patrizia a um novo mundo.

Presenteada com casacos de pele, carros esportivos e acesso aos círculos mais exclusivos da cidade, ela se inseriu gradualmente na alta sociedade. Foi nesse ambiente que conheceu Maurizio Gucci, herdeiro de uma das grifes mais poderosas do mundo, com quem se casaria no início dos anos 1970 e teria duas filhas. A vida do casal tornou-se sinônimo de excessos, com residências espalhadas entre Nova York, México, Alpes e um iate que simbolizava o auge da ostentação.

Maurizio Gucci, neto do fundador da marca Gucci/ Crédito: Divulgação/Youtube/RAI

Por trás da aparência de conto de fadas, no entanto, acumulavam-se tensões familiares e disputas de poder, agravadas pela rejeição do patriarca da família Gucci e pelas divergências sobre o futuro da marca. A separação, consumada após a saída definitiva de Maurizio de casa e o início de um romance com Paola Franchi, transformou expectativas de reconciliação de Patrizia em um verdadeiro filme de terror.

O assassinato a sangue-frio de Maurizio Gucci, em 27 de março de 1995, chocou a Itália e expôs ao mundo uma trama que culminaria na prisão de Patrizia, acusada de ter encomendado o crime. O julgamento resultou em 29 anos de prisão. Ao fim do processo judicial, entretanto, Patrizia passou quase duas décadas na prisão e deixou o sistema penitenciário em 2016, beneficiada pela avaliação de boa conduta. De volta a Milão, passou a levar uma vida discreta, embora ainda desperte atenção pública.


2. Tragédia por trás da Versace

Gianni Versace veio ao mundo em 1946, no sul da Itália, em Régio da Calábria, uma região marcada por dificuldades econômicas. Filho de um vendedor de eletrodomésticos e de uma costureira que comandava um pequeno ateliê, cresceu cercado por tecidos, moldes e conversas com clientes, aprendendo desde cedo a desenhar e costurar ao lado da mãe. A experiência no ateliê moldou seu olhar para o corpo e para a roupa desde muito cedo.

Já adulto, recebeu a oportunidade que mudaria seu destino ao ser convidado, aos 25 anos, para criar uma coleção destinada à produção em Milão, então o centro da moda italiana. O sucesso do trabalho abriu portas. Em 1978, fundou oficialmente a Versace, reunindo o irmão Santo e a irmã Donatella em torno do projeto, e apresentou sua primeira coleção. Suas criações apostavam em cores intensas, tecidos fluidos e materiais, até então, pouco usuais, como couro e plástico, rompendo com padrões mais discretos da época. Em 1997, no auge de uma carreira que se expandia para além das roupas, sua trajetória foi abruptamente interrompida.

Gianni Versace – Getty Images

Na manhã de 15 de julho daquele ano, Gianni foi morto diante de sua residência, no momento em que havia saído para uma breve caminhada. O autor do crime foi identificado como Andrew Cunanan, responsável por outros assassinatos em série nos Estados Unidos. Dias depois, ele tirou a própria vida, encerrando qualquer possibilidade de esclarecimento sobre suas motivações. Até hoje, o caso permanece cercado de perguntas sem resposta. Após a morte do irmão, Donatella assumiu a direção criativa da grife, dando continuidade a um legado marcado por ousadia e glamour.


3. Exploração sexual na Abercrombie

A trajetória de Mike Jeffries à frente da Abercrombie & Fitch ajudou a moldar uma estética que marcou uma geração, ao transformar uma empresa familiar em crise em uma potência global do varejo voltada ao público jovem. Sob seu comando, a marca construiu uma imagem baseada em sensualidade explícita, campanhas provocativas e modelos masculinos padronizados, estratégia que garantiu visibilidade e lucros, mas também abriu espaço para críticas recorrentes.

Jeffries tornou-se uma figura controversa no setor, cercada por acusações de discriminação interna, gordofobia e questionamentos sobre a influência informal de seu parceiro, Matthew Smith, nos rumos da companhia. A queda nas vendas levou à sua saída em 2014, acompanhada de um pacote de aposentadoria milionário que chamou atenção do mercado. Anos depois, uma investigação conduzida pela BBC trouxe à tona denúncias graves envolvendo a vida privada do ex-executivo.

Mike Jeffries – Getty Images

Segundo relatos colhidos ao longo de dois anos, jovens adultos alegaram ter sido recrutados para eventos organizados por Jeffries e Smith em residências e hotéis de luxo em diferentes cidades, onde foram explorados sexualmente. Os depoimentos indicam promessas vagas de oportunidades profissionais e informações incompletas sobre a real natureza dos encontros. Embora os participantes tenham sido pagos, muitos afirmaram ter se sentido enganados ou prejudicados pela experiência.

Preso, foi liberado após o pagamento de uma fiança de US$ 10 milhões. Em meio às investigações, ele foi considerado mentalmente incapaz por um tribunal, com diagnóstico de demência e Alzheimer de início tardio, o que levantou dúvidas sobre sua responsabilização. Avaliações médicas posteriores, no entanto, indicaram que ele pode responder judicialmente. Os envolvidos ainda negam as acusações.


4. A queda de John Galliano

John Galliano construiu sua trajetória a partir das salas da Central Saint Martins, em Londres, onde se destacou ainda como estudante antes de alcançar o posto máximo da moda de luxo. Ao longo de quinze anos, esteve à frente das maisons Givenchy e Dior, período em que vestiu algumas das figuras mais influentes do mundo. Reconhecido como um dos criadores mais bem-sucedidos das décadas de 1990 e 2000, transformou desfiles em espetáculos.

Esse percurso, no entanto, foi interrompido de forma abrupta quando ele foi flagrado em Paris proferindo insultos antissemitas do lado de fora do Café La Perle em 2011. Durante o processo judicial, o estilista admitiu as declarações ofensivas, embora tenha afirmado não se lembrar dos episódios e negado qualquer postura racista. O tribunal ouviu às ofensas, incluindo comentários racistas e a afirmação de que é admirador de Adolf Hitler, ditador da Alemanha Nazista. Galliano atribuiu os incidentes ao colapso provocado por anos de pressão profissional combinados com dependência de álcool, drogas e medicamentos.

John Galliano – Getty Images

Demitido imediatamente da Dior, ele viu sua reputação ruir. Após o julgamento, Galliano afirmou ter buscado tratamento. A volta por cima se deu em 2014, quando passou a trabalhar para a Maison Margiela, no entanto, decidiu encerrar a parceria em 2024. Seu futuro ainda é incerto.


++ Para saber mais sobre o assunto, adquira já nossa edição especial digital ’55 anos sem Coco Chanel’. Já disponível nas bancas digitais. Para saber mais, clique aqui!

Thiago Lincolins é jornalista, formado pela Universidade Anhembi Morumbi e pós-graduado em marketing digital através da Universidade Belas Artes. Ama escrever sobre personagens históricos, efemérides, arqueologia e entretenimento.