Fred Noonan: o piloto que desapareceu com Amelia Earhart
Muito além de ser apenas o copiloto da missão de 1937, Fred Noonan foi um dos navegadores aéreos mais respeitados de sua época

O nome de Fred Noonan costuma surgir quase sempre como apêndice de um dos maiores enigmas do século 20: o desaparecimento de Amelia Earhart durante a tentativa de circum-navegar o planeta em 1937. No entanto, reduzir Noonan à condição de “copiloto desaparecido” é ignorar a trajetória de um dos profissionais mais importantes da aviação em um período em que voar sobre oceanos ainda era um feito cercado de incertezas técnicas, cálculo astronômico e risco extremo.
Fred Noonan: uma referência na navegação
Antes de entrar para a história ao lado de Earhart, Fred Noonan já havia construído uma reputação sólida como navegador. Nascido em 1893, em Chicago, ele iniciou a carreira no mar, atuando na marinha mercante e posteriormente alcançando o posto de capitão. A experiência náutica seria decisiva para sua transição para a aviação, já que, nas primeiras décadas do século 20, a navegação aérea herdava muitos métodos da navegação marítima.

Em uma época anterior aos modernos sistemas eletrônicos, GPS ou radares sofisticados, atravessar longas distâncias exigia conhecimento técnico refinado. Navegadores como Noonan dependiam de cartas, bússolas, rádio e, sobretudo, da observação dos astros — Sol, Lua e estrelas — para definir a rota. Essa habilidade fez com que ele fosse contratado pela Pan American Airways, companhia pioneira em voos de longa distância.
Foi nesse contexto que Noonan participou de missões históricas. Em 1935, ele integrou a equipe do famoso China Clipper, hidroavião que realizou algumas das primeiras rotas comerciais transoceânicas entre os Estados Unidos, o Havaí e a Ásia. Seu trabalho ajudou a consolidar a expansão da aviação internacional em um momento em que cada novo trajeto representava um salto tecnológico.
A parceria e o sumiço com Earhart
A notoriedade conquistada por Noonan chamou a atenção de Amelia Earhart e de seu marido e empresário, George Putnam. Àquela altura, Earhart já era uma celebridade mundial, conhecida por sucessivos recordes na aviação e por sua imagem de pioneirismo feminino em um ambiente predominantemente masculino. Em 1937, ela preparava a missão mais ambiciosa de sua carreira: tornar-se a primeira mulher a completar um voo ao redor do mundo.
Inicialmente, o projeto previa uma tripulação maior. Porém, após problemas durante uma tentativa anterior da viagem e a saída de outros membros da equipe, a etapa decisiva ficou restrita a Earhart e Noonan. A dupla partiu em maio daquele ano para a segunda tentativa da circum-navegação, desta vez voando no sentido oeste-leste.

O percurso avançou com relativa normalidade por várias etapas. Após passagens pela América do Sul, África, Ásia e Oceania, restava a etapa mais delicada: o voo entre Lae, na então Nova Guiné, e a pequena Howland Island, no Pacífico. O destino era um minúsculo ponto em meio à vastidão oceânica, o que tornava a precisão da navegação absolutamente crucial.
Em 2 de julho de 1937, Earhart e Noonan decolaram para aquele que seria o trecho final rumo aos Estados Unidos. Nunca chegaram ao destino.
A partir desse momento, o desaparecimento da aeronave Lockheed Electra se transformou em um dos maiores mistérios da história moderna. A teoria oficialmente mais aceita sustenta que a dupla não conseguiu localizar Howland Island, consumiu o combustível durante as buscas e caiu no oceano.
Teorias e conspirações
Com o passar das décadas, o nome de Fred Noonan passou a ser alvo de especulações. Algumas versões tentaram responsabilizá-lo pelo fracasso da missão, sugerindo erro de navegação ou até problemas relacionados ao consumo de álcool. No entanto, historiadores e pesquisadores apontam que muitas dessas alegações surgiram anos depois, sem documentação robusta que as sustentasse.
Também existem hipóteses alternativas: a de que a aeronave teria pousado em outra ilha, como Nikumaroro; a teoria de captura pelos japoneses; e até interpretações mais conspiratórias que ganharam força ao longo do século passado. Nenhuma, contudo, foi comprovada de forma definitiva.
O caso continua fascinando justamente porque a figura de Noonan representa um ponto de tensão entre heroísmo e mistério. De um lado, ele foi um profissional altamente qualificado, responsável por algumas das rotas aéreas mais ousadas de sua época. De outro, sua memória ficou para sempre associada ao desaparecimento de uma lenda da aviação.