Amelia Earhart: os pequenos erros que podem ter levado ao acidente da aviadora
Para piloto que investigou durante décadas o desaparecimento do avião de Amelia Earhart, o incidente teria resultado de uma sucessão de pequenos erros

Em 28 de novembro de 1971, o piloto americano Elgen Long decidiu colocar à prova uma pergunta que o intrigava havia anos: afinal, seria realmente tão difícil encontrar a pequena Ilha Howland?
Assim como a pioneira da aviação Amelia Earhart e seu navegador Fred Noonan fizeram em 1937, Long tentaria localizar a ilha usando navegação celeste. Ele voava um pequeno bimotor e utilizava instrumentos semelhantes aos da década de 1930: um octante para medir a posição do Sol e uma bússola magnética.
Após nove horas de voo sobre o Pacífico, deu início à descida. Por alguns minutos não viu nada além de nuvens. Então o céu abriu e lá estava ela: Howland surgia exatamente onde seus cálculos indicavam. A experiência logo levantou uma dúvida perturbadora. Se a navegação celeste funcionava, por que Earhart e Noonan não conseguiram encontrar a ilha?
De acordo com o National Geographic foi justamente essa pergunta que levou Long e sua esposa, Marie, a dedicarem mais de duas décadas à investigação do desaparecimento do avião de Earhart, o Lockheed Electra 10‑E. Ao final da pesquisa, eles chegaram à inquietante conclusão de que o desaparecimento não teria sido causado por um único erro dramático, mas por uma sucessão de pequenos equívocos que, somados, tornaram o desastre quase inevitável.
Mapas incorretos
No dia 2 de julho de 1937, quando Earhart transmitiu pelo rádio que “deveria estar sobre” a ilha, ela provavelmente estava certa, pelo menos de acordo com os mapas que possuía. O problema é que esses mapas estavam incorretos.
A posição de Howland havia sido determinada décadas antes por levantamentos incompletos. Apenas alguns anos antes da viagem de Earhart, navios da Guarda Costeira do Estados Unidos identificaram que a ilha estava cerca de seis milhas náuticas fora da posição indicada nas cartas antigas. Um mapa corrigido foi publicado apenas em junho de 1937, tarde demais para chegar às mãos de Noonan.
Assim, quando os aviadores calcularam sua rota final, estavam procurando a ilha em um ponto deslocado no oceano.

O erro da bússola
Outro detalhe pode ter agravado a situação. Segundo Long, Noonan presumiu que a bússola do avião indicava o norte magnético com precisão absoluta. Em seus cálculos de navegação, ele registrava desvio “zero”.
Mas praticamente nenhuma bússola de aeronave é perfeita. Correntes elétricas e peças metálicas costumam causar pequenas distorções. Long estimou que a bússola poderia estar desviada em cerca de quatro graus.
Em um voo curto, isso seria irrelevante. Em uma travessia de milhares de quilômetros sobre o Pacífico, porém, essa diferença poderia deslocar o avião vários quilômetros da rota planejada. Somando o erro do mapa com o possível desvio da bússola, o Electra já poderia estar mais de dez milhas distante da posição esperada.
Condições climáticas
A meteorologia também teve um papel inesperado. Relatórios enviados pelo navio da Guarda Costeira indicavam ventos fracos vindos do leste, algo entre quatro e oito milhas por hora. Era uma brisa suave demais para criar ondulações visíveis no mar.
Sem sinais visuais claros, Noonan dificilmente conseguiria calcular a força desse vento. E havia ainda outro problema: ele havia deixado em terra um instrumento chamado “bomba de deriva”, usado justamente para medir o deslocamento causado pelo vento.
Mesmo uma corrente de ar leve poderia empurrar o avião alguns quilômetros para oeste ao longo de várias horas de voo. Combinados, esses fatores talvez tenham deslocado o Electra cerca de 18 milhas a oeste da ilha, além do limite de visibilidade naquele amanhecer.
O colapso das comunicações
Apesar dessas dificuldades, Earhart havia planejado um sistema de segurança. O navio USCGC Itasca aguardava próximo à ilha para orientar o avião por rádio. Mas esse plano também falhou.
Earhart havia informado que transmitiria mensagens em determinados horários e ouviria respostas em outros. Os operadores de rádio do navio interpretaram o cronograma de forma diferente e esperavam conversas contínuas. Assim, frequentemente transmitiam quando Earhart não estava ouvindo e escutavam quando ela não estava falando.

Outro detalhe complicava a situação: os fusos horários. Earhart utilizava o horário de Greenwich, enquanto a tripulação do navio seguia um horário local diferente. Uma diferença de meia hora acabou desalinhando ainda mais as transmissões. Durante horas, os dois lados tentaram se comunicar sem realmente se encontrar na mesma frequência e no mesmo momento.
Houve ainda um mal-entendido técnico. Em determinado momento, o Itasca transmitiu sinais em código Morse. Para os operadores do navio, aquilo parecia uma escolha óbvia: qualquer profissional de rádio saberia interpretar o código. Mas Earhart e Noonan não dominavam Morse. Se o receptor do avião estivesse configurado para sinais de voz, tudo o que eles teriam ouvido seria um ruído incompreensível.
O equipamento que não funcionou
O plano original previa um recurso ainda mais avançado: um sistema de radiogoniometria capaz de localizar o avião a partir de seus sinais de rádio. Contudo, esse sistema também enfrentou problemas.
Um operador especializado havia sido convidado para acompanhar Earhart nas primeiras etapas do voo. Ele desistiu após um acidente ocorrido no início da viagem. Earhart recebeu apenas uma breve explicação sobre o funcionamento do aparelho.
Durante o voo, ela chegou a remover um fio que permitia ao equipamento captar determinadas frequências essenciais para a navegação por rádio — sem perceber a importância dele.
Do lado do Itasca, um aparelho portátil de radiogoniometria também foi instalado às pressas. A tripulação, porém, não tinha experiência com o equipamento. Mais tarde, relatos indicaram que o dispositivo sequer estava funcionando corretamente. Assim, o principal sistema de emergência que deveria guiar o avião até a ilha acabou inutilizado.
Combustível insuficiente
Por fim, havia o fator mais implacável de qualquer voo de longa distância: o combustível. O Electra havia sido abastecido no dia anterior à decolagem na cidade de Lae. O calor tropical alterou ligeiramente a densidade da gasolina, reduzindo a quantidade efetiva disponível. A diferença era pequena, mas apenas alguns galões poderiam significar minutos preciosos a menos de voo.
Segundo Long, a última transmissão de Earhart indica que o avião provavelmente estava nos momentos finais de combustível quando a comunicação cessou.
Detalhes pequenos, mas determinantes
A hipótese defendida pelos Long é relativamente simples: o Electra ficou sem combustível enquanto procurava a ilha e caiu no oceano próximo a Howland.
Nenhum dos erros envolvidos teria sido fatal por si só. De um mapa impreciso a equipamentos novos que ninguém sabia operar, cada falha parecia pequena. Juntas, porém, formaram uma cadeia de eventos que deixou Earhart e Noonan perdidos.
Décadas depois, Elgen Long calculou uma área provável para o local da queda: um retângulo de cerca de 2.000 milhas náuticas quadradas ao redor de Howland. Para ele, se essa região for explorada com cuidado, há grande chance de que os destroços do Electra sejam finalmente encontrados.