Matérias / Arqueologia

Famoso bairro japonês de SP teve passado de violência escravocrata

Descoberta arqueológica recente revelou mais sobre o passado de violência escravocrata no famoso bairro da Liberdade, no centro de São Paulo

Divulgação/Zanettini Arqueologia

O bairro da Liberdade, famoso por sua rica herança cultural japonesa, também carrega um passado sombrio relacionado à escravidão no Brasil. Uma nova descoberta arqueológica, anunciada nesta quarta-feira, 19 de novembro, lança luz sobre essa parte obscura da história.

Durante escavações na Capela dos Aflitos, que pertence à Arquidiocese de São Paulo e está situada na Liberdade, foram encontrados restos mortais que podem pertencer a entre cinco e dez indivíduos. Os pesquisadores ainda estão em processo de análise para confirmar a quantidade exata de ossadas encontradas.

A descoberta sugere que o local já foi utilizado como cemitério para condenados à pena capital, predominantemente escravizados que foram capturados após tentativas de fuga. De acordo com os estudiosos envolvidos, existe uma alta probabilidade de que os corpos sejam de pessoas negras, embora esse aspecto ainda precise ser verificado em laboratório.

Antigo Campo da Forca

Historicamente, a Praça da Liberdade foi o local conhecido como Campo da Forca, onde entre 1765 e 1874, execuções por enforcamento eram frequentemente realizadas. Aqueles que não tinham seus corpos mutilados eram sepultados nas proximidades da capela.

Dentre os corpos descobertos, acredita-se que cinco tenham sido submetidos ao sepultamento estruturado — uma prática onde os restos mortais são dispostos em covas ou jazigos organizados. Esses restos foram encontrados a cerca de um metro de profundidade na área do antigo velário da capela.

No entanto, na região da sacristia e do banheiro, foram localizados ossos desestruturados a menos de 50 centímetros de profundidade. O arqueólogo responsável pelas escavações, Paulo Zanettini, enfatiza à BBC News Brasil que o trabalho ainda “está em pleno andamento e alguns ainda podem ser achados. No chão da sacristia, há um amontado de seres humanos e precisamos reconstituir as peças desses quebra-cabeças de potenciais indivíduos“.

Esta recente descoberta complementa outra realizada em 2018, quando foram encontrados restos mortais de oito pessoas na mesma área, evidenciando o histórico de violência contra africanos e afrodescendentes no bairro da Liberdade.

Investigações

As escavações foram iniciadas devido à restauração da Capela dos Aflitos, que atualmente permanece fechada ao público. A arquidiocese informou que as investigações se concentraram em várias partes da capela para avaliar sua conservação.

A área é considerada um sítio arqueológico e, devido à sua importância histórica, a empresa Zanettini Arqueologia foi contratada para supervisionar o processo. Além dos restos humanos, também foram encontrados fragmentos cerâmicos e elementos de um enxoval funerário. Segundo Zanettini, um dos indivíduos enterrados possuía adereços e colares que indicam uma posição significativa dentro da comunidade.

A decisão conjunta entre a arquidiocese e lideranças comunitárias foi pela remoção dos materiais para estudo. As imagens das descobertas não serão divulgadas como forma de respeito aos ancestrais negros da comunidade, repercute a BBC News Brasil.

Os restos humanos considerados fora de sepulturas começaram a ser exumados nesta semana e serão analisados no Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva da Universidade de São Paulo (USP). O arqueogeneticista Tiago Ferraz expressou a intenção de “ter uma conversa muito sincera com as comunidades negras” ligadas à memória da Liberdade antes das análises laboratoriais para respeitar o processo de recuperação da memória coletiva. Após as análises, os restos mortais deverão ser reenterrados na capela, respeitando seu significado sagrado conforme consenso entre os envolvidos.

Revisitando a história local

Essa descoberta já gerou repercussão no meio acadêmico. O historiador Paulo Henrique Martinez, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ressalta que revisitar episódios históricos violentos é essencial nas políticas públicas atuais sobre memória. Ele destaca a importância do achado para revelar o passado afro-brasileiro do bairro, frequentemente ofuscado pelo esquecimento.

“Na variedade de tipos de patrimônio histórico e cultural paulistano, a Capela dos Aflitos e seus remanescentes materiais e humanos inscrevem-se no acervo de experiências e de testemunhos da memória traumática que está adquirindo expressão cultural e relevância histórica e política no século 21”, afirma Martinez.

Ele acrescenta a importância da descoberta ao trazer mais evidências sobre o passado afro do bairro, que hoje é muito “recoberto com a capa do esquecimento e da invisibilidade”. Por isso, avalia que é preciso “encarar esse passado [escravocrata] com vigor e lucidez, olhar firme e fixamente nos olhos dessa tragédia”.

Outro historiador, Victor Missiato, do Instituto Presbiteriano Mackenzie, acredita que tais descobertas são fundamentais para “reconstituir o máximo da história dessas pessoas [escravizadas e ex-escravizadas] para termos em mente as atrocidades que aconteceram”. Ele critica a visão eurocêntrica predominante em São Paulo que tende a silenciar esse passado afro-brasileiro.

A Capela dos Aflitos foi erguida em 1779 como parte do Cemitério dos Aflitos, destinado ao sepultamento de marginalizados sociais — escravizados, indígenas e condenados à morte. O cemitério foi fechado no século 19 com a inauguração do Cemitério da Consolação.

O nome “Liberdade” associado ao bairro é também motivo de debate acadêmico; alguns acreditam que remete à história de Francisco José das Chagas (Chaguinhas), um soldado negro executado em 1821 por liderar um motim. Durante sua execução, gritos clamando por liberdade teriam ecoado entre a multidão.

À medida que novas descobertas arqueológicas emergem e ganham visibilidade pública, aumenta a consciência sobre o papel desses espaços históricos na promoção dos direitos humanos e na reparação histórica.

“A presença de elementos materiais confere atualidade e permite questionamentos tanto sobre a memória preservada quanto sobre a memória apagada e silenciada. Levam diretamente ao coração da história da cidade e de seus habitantes”, comenta Martinez. “Espaços de dor, enclausuramento e castigos tornaram-se relevantes espaços pedagógicos para a promoção e a educação em direitos humanos, justiça, conhecimento, reparação aos indivíduos e grupos sociais afetados. São termômetros sociais da eficácia da democracia baseada na igualdade e na liberdade.”

A história da Liberdade continua a se desenrolar através dessas investigações, reafirmando seu significado profundo dentro do contexto cultural e social brasileiro.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.