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Documentos revelam venda de escravizados mesmo após proibição, no Rio de Janeiro

Documentos sobre venda de escravizados mesmo após a proibição deste comércio foram encontrados em Barra de Guaratiba, no Rio

Ilustração representando navio negreiro transportando escravizados / Crédito: Domínio Público

Uma equipe de pesquisadores está empenhada em garantir o tombamento e a investigação de uma área histórica localizada em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A região, que pertenceu à família Souza Breves durante o período de transição da escravidão, é considerada um dos maiores portos clandestinos para o desembarque de pessoas escravizadas no Brasil.

Estudos indicam que cerca de meio milhão de vítimas do tráfico podem ter passado por este local ao longo de 50 anos. Mas a descoberta de documentos recentes chamou atenção ao revelar registros da compra e venda de indivíduos escravizados, mesmo após a proibição do comércio de seres humanos a partir de 1830. Tais achados são fundamentais para a compreensão da história da escravidão na região.

Joaquim José de Souza Breves era um dos maiores cafeicultores do Brasil e acabou virando um dos maiores traficantes de escravizados do Brasil”, disse o pesquisador André Luiz Mansur ao g1.

Flávio Moraes, sociólogo com mais de duas décadas de pesquisa sobre Barra de Guaratiba, destaca a importância dos vestígios históricos, como a Casa do Porto. Este local serviu como ponto de acolhimento para os escravizados que chegavam da África, apresentando características típicas das senzalas e áreas de confinamento para aqueles que chegavam debilitados. “São algumas ruínas, essa região está documentada em diferentes mapas de navegação do período, sobretudo da Inglaterra, porque eles fiscalizavam o tráfico negreiro ilegal e essa casa está registrada também em documentos pela história oral”, explica Moraes.

Passado escravocrata

A Casa do Porto foi demolida décadas atrás para a construção de uma ponte, mas sua existência ainda é recordada através de registros fotográficos e documentação oral. As pesquisas realizadas por Moraes incluem estimativas baseadas nas apreensões realizadas durante o auge do tráfico, sugerindo que entre 1830 e 1888 mais de meio milhão de pessoas desembarcaram na Restinga da Marambaia.

“Eu acredito que da proibição de 1830 a 1888 foram mais de meio milhão de pessoas que entraram pela Restinga da Marambaia e aí a gente faz esse levantamento a partir das apreensões”, afirma Flávio Moraes. “Em um ano que houve uma fiscalização mais firme de um chefe de polícia chamado Azambuja, se a gente pega a média de apreensão de negros a gente chega no número de meio milhão, se a gente projetar a gente chega em meio milhão”.

A primeira viagem documentada ao local ocorreu em 1716, quando uma embarcação trouxe 288 escravizados. No entanto, registros detalhados pararam a partir de 1850, quando as fiscalizações se intensificaram. Um dos documentos encontrados refere-se a um navio chamado União Feliz, que fez uma travessia da Angola em 1837 e perdeu 50 pessoas durante a viagem.

Dentre os sobreviventes dessa travessia estava um menino chamado Panda, além de três meninas: Lua Cheia, Muade e Biemba. Os registros não fornecem informações sobre seus destinos após a chegada ao Brasil.

Com o intuito de preservar essa memória histórica e transformar o espaço em um ponto turístico voltado para a educação sobre a escravidão, Flávio Moraes já apresentou dois pedidos junto à prefeitura do Rio e ao governo federal para o tombamento da área.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.