No dia 28 de julho de 1938, o grupo de Lampião e Maria Bonita, "rei e rainha do cangaço", sofreu uma emboscada brutal que encerrou suas histórias
Publicado em 30/03/2025, às 18h00
Na próxima sexta-feira, 4, estreia no Disney+ a série 'Maria e o Cangaço', uma produção brasileira que gira em torno de Lampião e Maria Bonita, o casal que se tornou uma das maiores lendas do sertão nordestino, consagradas pela história como "rei e rainha do cangaço".
Dirigida por Sérgio Machado, a produção conta com Julio Andrade e Isis Valverde como Lampião e Maria Bonita, compondo as duas figuras centrais da história. "Maria Bonita se vê dividida entre a vida no cangaço e o desejo impossível de criar sua filha", narra a sinopse.
Com feitos conhecidos na época, e também muito criticados devido à violência que empregavam, Lampião e seu grupo foram inimigos públicos pelas autoridades, o que culminou com uma brutal emboscada que vitimou não só os dois líderes, como também vários de seus membros.
Conforme repercute O Globo, durante 18 anos, o capitão Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, liderou um bando que teve mais de 40 cangaceiros, na primeira metade do século passado. O rei do cangaço ficou conhecido principalmente por cometer e comandar crimes no nordeste brasileiro, incluindo assassinatos, sequestros e saques de cidades.
Embora tenha sido declarado como inimigo público pelas autoridades, o cangaço também foi visto na época como um movimento de combate às desigualdades e aos apelos de políticos e fazendeiros que ocupavam grande parte da região. Por isso, não demorou até que Lampião se tornasse um grande protagonista na cultura nordestina, bem como uma figura controversa.
Lampião nasceu em 4 de junho de 1898 no município de Vila Bela — hoje, chamado de Serra Talhada —, no Pernambuco. Porém, apesar de toda a fama, pessoas próximas disseram, após à sua morte, que ele já vontade de largar a vida de bandidagem, após comprar terras em Sergipe.
No entanto, seu nome já era tão conhecido — e odiado por muitos — que, com seus pouco mais de 40 anos e filhos, era procurado vivo ou morto por autoridades de diferentes estados. Como resultado, no fatídico 28 de julho de 1938, quando ele e o bando estavam na Grota do Angico, em Sergipe (onde hoje é o município de Poço Redondo), sofreram uma emboscada que matou o cangaceiro sem a menor piedade.
Era por volta das 5h da manhã quando os jagunços de Lampião, que ainda estavam acordados, se viram cercados. Eles estavam acampados em meio ao sertão do Sergipe, num lugar que o cangaceiro considerava seguro, mas alguém os traiu. Todo o grupo foi emboscado por uma força policial da época, conhecido como "volante", criada justamente para localizar e eliminar Lampião.
O grupo de policiais, comandados pelo coronel João Bezerra da Silva, cercaram o acampamento, relatou O Globo na época. Ao se aproximarem, os membros do "volante" inclusive viram Maria Bonita se lavar e pentear os cabelos na beira de um riacho, antes de avançarem.
Ao todo, onze cangaceiros foram mortos, e outros fugiram ou foram presos. Aqueles que estavam presentes relataram que Lampião foi o primeiro a morrer, alvejado pelo tenente Antônio Honorato da Silva ao menos três vezes, na boca, na nuca e na cintura.
"Vi Lampião erguer-se, ele tinha no rosto um pavor enorme", narrou o soldado na época, por meio de telégrafo, em depoimento publicado em 1º de agosto de 1938.
Levei o fuzil ao rosto e mirei bem. A mulher estendeu os braços, pedindo clemência. Nesse instante, fiz fogo. Ele baqueou e eu acompanhei a queda dele com dois tiros. Estou satisfeitíssimo. Sou o homem mais feliz do mundo", continuou Antônio Honorato da Silva.
Para os "volantes", no entanto, a morte de Lampião e de outros cangaceiros — incluindo a própria Maria Bonita, que morreu na mesma ocasião — não era o bastante. Em um ato de violência, os soldados decidiram decapitar todos os corpos. Maria Bonita, inclusive, chegou a ser atingida com um tiro, mas não foi letal; e é dito que ela ainda estava viva no momento em que os policiais começaram a degolá-la.
As cabeças foram ritualisticamente salgadas, embebidas em álcool e transportadas em latas de querosene pelas autoridades. E o mais chocante: eles as expuseram em cidades pelo caminho, antes de chegarem à capital do Alagoas.
Uma foto da época ficou conhecida. É possível observar as cabeças decepadas dos membros mortos do bando — inclusive do rei e da rainha do cangaço — e posicionadas na escadaria do Palácio Dom Pedro II, atual sede da Prefeitura de Piranhas, em Alagoas.
Confira mais sobre parte da brutal história de Lampião e Maria Bonita em 'Maria e o Cangaço', que estreia na próxima sexta-feira, 4, no Disney+.