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Em 1990, Collor encerrou o plano secreto nuclear no Brasil

Em 1990, o então presidente Fernando Collor de Mello pôs fim a um projeto secreto da ditadura que buscava domínio nuclear e criar uma bomba atômica

Fernando Collor de Mello jogando cal em túnel construído para testes nucleares / Crédito: Reprodução

A escalada recente de tensões no Oriente Médio, marcada por ataques de Israel e dos Estados Unidos a instalações nucleares no Irã, reacendeu um debate global que parecia arrefecido desde o fim da Guerra Fria: os limites do uso da energia nuclear e os riscos associados à sua militarização.

Em meio a temores sobre proliferação e possíveis respostas em cadeia, o tema voltou ao centro das discussões internacionais, trazendo à tona não apenas o presente, mas também episódios menos conhecidos do passado. Nesse contexto, a história do programa nuclear brasileiro — que chegou a flertar com a construção de uma bomba atômica durante o regime militar — ressurge como um exemplo revelador das pressões geopolíticas, ambições estratégicas e dilemas éticos que cercam o domínio dessa tecnologia.

Nuvem formada após explosão de bomba atômica em teste de 1971 / Crédito: Getty Images

Brasil nuclear?

A decisão do Brasil de abandonar qualquer ambição de desenvolver armas nucleares no início da década de 1990 marcou o desfecho de um dos capítulos mais sigilosos da história recente do país. Durante anos, em meio ao regime militar, diferentes frentes das Forças Armadas conduziram iniciativas paralelas que buscavam dominar integralmente a tecnologia nuclear — inclusive com potencial uso bélico.

Esse esforço, iniciado ainda nos anos 1970, partia da convicção de setores militares de que o domínio da bomba atômica seria essencial para garantir respeito internacional ao Brasil. Na prática, o país manteve dois programas simultâneos: um oficial, voltado para fins pacíficos, e outro clandestino, cujo objetivo incluía a capacidade de produzir ogivas nucleares.

O projeto ganhou força no fim da década, durante o governo de João Batista Figueiredo, quando os Estados Unidos endureceram as regras de cooperação nuclear. Como resposta, o Brasil passou a buscar autonomia completa nesse campo. Assim surgiu o chamado Programa Nuclear Paralelo, dividido entre iniciativas conduzidas pela Aeronáutica, pela Marinha e pelo Exército.

Entre as estruturas criadas nesse contexto estava um poço de 320 metros de profundidade na Serra do Cachimbo, no Pará, construído em 1984. O local, instalado em uma área remota sob controle da Força Aérea, seria destinado à realização de testes nucleares. Oficialmente, nenhuma explosão chegou a ocorrer ali.

Fim da era nuclear

Em 18 de setembro de 1990, o então presidente Fernando Collor protagonizou o gesto simbólico que encerraria esse ciclo: diante da imprensa, lançou uma pá de cal sobre o túnel, sinalizando o fim das ambições nucleares militares do país. A decisão refletia não apenas uma mudança de orientação política interna, mas também o contexto internacional da época, marcado pelo fim da Guerra Fria e pela pressão dos Estados Unidos contra a proliferação nuclear.

“A desistência de um programa nuclear brasileiro é melhor explicada pela pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil e a Alemanha Ocidental, que era o país com o qual o Brasil possuía um acordo de compartilhamento de tecnologia, do que pela dinâmica da Guerra Fria. Essa pressão criou dificuldade para a continuidade do desenvolvimento do programa brasileiro pela falta de acesso à tecnologia e ao material necessário para dar continuidade ao programa”, explica Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, à Gazeta do Povo.

Apesar do encerramento formal, investigações posteriores revelaram que o programa secreto havia avançado significativamente. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), instalada em 1990, concluiu que o Brasil já dominava etapas cruciais do ciclo nuclear. A Marinha, por exemplo, havia conseguido enriquecer urânio em Iperó (SP), enquanto a Aeronáutica desenvolvia técnicas de enriquecimento por laser em São José dos Campos (SP). O Exército, por sua vez, trabalhava na construção de um reator em Guaratiba (RJ).

Descobertas posteriores

O relatório da CPI apontou que, dentro do contexto anterior à Constituição de 1988, o programa não era ilegal e chegou a destacar seus avanços tecnológicos. Ainda assim, o novo marco constitucional estabeleceu limites claros: “Toda atividade nuclear em território nacional somente será admitida para fins pacíficos e mediante aprovação do Congresso Nacional”.

Paralelamente, o Brasil também se envolveu em episódios controversos, como a exportação de urânio para o Iraque de Saddam Hussein entre 1979 e 1990. Segundo relatos, o cenário incluía operações clandestinas, espionagem e até subornos, evidenciando a complexidade e a opacidade do programa nuclear brasileiro naquele período.

A disputa regional também desempenhou papel relevante. Durante as décadas de 1970 e 1980, Brasil e Argentina buscavam desenvolver capacidades nucleares semelhantes, alimentando uma rivalidade estratégica. O temor era que a superioridade tecnológica de um dos países consolidasse sua posição como potência militar na América do Sul.

Com a redemocratização, no entanto, os dois países passaram a adotar uma postura de cooperação. Em 1985, os presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín assinaram a Declaração Conjunta de Foz do Iguaçu, comprometendo-se a utilizar a energia nuclear exclusivamente para fins pacíficos. A parceria evoluiu nos anos seguintes, com acordos que permitiam inspeções mútuas em instalações nucleares.

Mesmo após o gesto de Collor em 1990, o Brasil demorou a formalizar seu compromisso internacional. O país só aderiu ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear em 1998, já no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando a maioria das nações já havia assinado o acordo.

Dúvidas remanescentes

Hoje, embora tenha abandonado qualquer projeto de armamento nuclear, o Brasil mantém domínio sobre o ciclo do combustível nuclear e investe em iniciativas como a construção de um submarino com propulsão atômica. Ainda assim, os bastidores do antigo programa militar seguem cercados de lacunas e questionamentos.

Como indicam especialistas, parte dessas informações permanece sob sigilo, alimentando dúvidas sobre o real alcance das ambições nucleares brasileiras no passado — e reforçando a importância histórica da decisão que, há mais de três décadas, colocou um ponto final nesse projeto.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.