Cultura Racional: a seita ‘alienígena’ que marcou a vida de Tim Maia
Na década de 1970, Tim Maia chamou grande atenção nacional ao pausar seus vícios e gravar discos relacionados ao grupo Cultura Racional; confira!

Nascido no Rio de Janeiro em 28 de setembro de 1942, Sebastião Rodrigues Maia, mais conhecido como Tim Maia, é indiscutivelmente um dos maiores nomes da música brasileira. Em seus 55 anos de vida — falecendo em 15 de março de 1998 —, ele foi um verdadeiro ícone ao misturar gêneros negros típicos dos Estados Unidos com ritmos brasileiros, incluindo o baião e o samba.
Isso tudo sem mencionar, é claro, sua voz extremamente potente e inconfundível, um jeito bastante descontraído (e até mesmo excêntrico) e canções que ele mesmo definia como “mela cueca” e “esquenta sovaco”. Porém, nem só de glórias foi a sua carreira.
Além da fama e da excentricidade, Tim Maia também era muito lembrado por seus excessos. Tanto que, após uma vida regada a muito sexo, álcool, maconha e outras drogas, ele morreu aos 55 anos devido a uma infecção generalizada. Porém, quem conhece esse aspecto da trajetória de Tim Maia pode se surpreender ao descobrir que, entre 1974 e 1975, ele chegou a ficar momentaneamente distante desses vícios — e, musicalmente, essa foi também a fase mais brilhante de sua carreira.
Esse período ficou marcado pelos já considerados clássicos discos ‘Racional Volume 1’ e ‘Racional Volume 2’. Mas certamente o mais decisivo para o momento foi o fato do artista ter se tornado adepto, nestes anos, da seita Cultura Racional, cuja sede ficava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense — e cuja crença era bastante curiosa, misturando discos voadores e a umbanda.
Fase Racional
Em 1974, Tim Maia já tinha ficado bastante conhecido pelo Brasil com faixas como ‘Primavera (Vai Chuva)’, ‘Azul da Cor do Mar’, ‘Você’, ‘Réu Confesso’, ‘Gostava Tanto de Você’, entre outras, em quatro álbuns. E ele também já tinha as partes instrumentais das músicas de seus próximos dois discos prontas, faltando apenas as letras.
Foi nesse entre-tempo que o músico se converteu à Cultura Racional; e, inspirado pelos ensinamentos do guru e fundador da seita, Manoel Jacinto Coelho, escreveu para as faixas que já tinha pré-prontas letras que enalteciam a doutrina — e pareciam fruto de uma grande alucinação, sendo incompreensíveis para muitos de seus fãs.
Tim Maia também passou a usar apenas roupas brancas em suas aparições públicas, e disse publicamente ter parado de consumir drogas e carne vermelha. E todos esses bons hábitos certamente lhe renderam frutos: sua voz se transformou em uma joia cristalina, e é possível apreciar ainda mais sua potência vocal nos álbuns lançados no período — que possuem faixas memoráveis como ‘Imunização Racional’, ‘O Caminho do Bem’ e ‘Contato com o Mundo Racional’.
Um fôlego e uma potência, uma clareza e uma riqueza de timbres que saltavam aos ouvidos. Estava cantando como nunca”, escreveu Nelson Motta no livro ‘Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia’, ao descrever o trabalho de Tim Maia com os álbuns.

Se desconsiderar o fanatismo com que o artista seguia a seita, ela foi bastante positiva para ele: além da melhora na saúde, ele também se aproximou da família, e ainda fundou seu próprio selo de gravadora — pois sua gravadora anterior se recusou a lançar os discos —, o Seroma (uma abreviação das primeiras letras de seu nome completo, Sebastião Rodrigues Maia, mas que curiosamente também pode ser lida como “amores”, ao contrário).
A decisão de criar o Seroma se mostrou bastante acertada a longo prazo, pois garantiu que Tim Maia pudesse lançar suas músicas sem precisar da aprovação e controles de outra gravadora, além de ter domínio total sobre sua obra, conforme repercute a Veja.
Desencanto
No entanto, o fascínio pela religião não durou muito, e Tim Maia acabou se desencantando com a seita e com os ensinamentos de Manoel Jacinto Coelho. Antes de mais nada, vale mencionar: a doutrina pregava que seria possível atingir a Iluminação através da leitura de centenas de livros da Imunização Racional, e ao entender de onde viemos, o que somos e para onde vamos, baseando-se em teses que mesclavam espiritismo, metafísica, ecologia e até discos voadores e alienígenas.
Porém, segundo Motta, no dia 25 de setembro de 1975 veio a desilusão. Naquele dia, Tim Maia acordou com uma vontade incontrolável de comer carne, beber e fumar um “baurete” (como ele se referia à maconha); e ele simplesmente voltou para casa em uma espécie de surto, quebrou tudo, e ficou gritando pela janela que o guru era um “pilantra”, “ladrão” e que “comia todo mundo”.
Após isso, Tim passou a ter uma postura envergonhada dos discos da “fase Racional”, e mandou que fossem retirados das lojas; o que os torna, hoje, não apenas clássicos como também raros, e praticamente impossíveis de ser encontrados. Após esses dois anos bastante singulares da vida de Tim Maia, o músico voltou a gravar suas músicas, e a lançar álbuns; sua vida voltou ao caótico “normal”.
Depois que Tim Maia morreu, as músicas dos álbuns ‘Racional’ foram relançadas, e hoje estão inclusive disponíveis em plataformas de streaming e no YouTube. Em 2011, outras músicas gravadas nesse período também foram descobertas, e ainda foi lançado um disco póstumo, o ‘Racional Volume 3’.