Ciclo Sem Fim: Como canção de ‘O Rei Leão’ acarretou em processo contra comediante?
Compositor de 'Ciclo Sem Fim', emblemática canção de 'O Rei Leão', Lebo M processa o comediante Learnmore Jonasi por má interpretação da música em US$ 27 milhões

Um dos maiores clássicos das animações da Disney, ‘O Rei Leão’ foi lançado em 1994 e, mesmo hoje, mais de 30 anos depois, ainda causa arrepios em seus primeiros segundos com uma das músicas mais emblemáticas da história das animações: ‘Ciclo Sem Fim’ (nome esse dado à versão em português da faixa). No entanto, essa canção agora é centro de uma ação judicial controversa.
O compositor sul-africano Lebo M entrou com uma ação judicial nos Estados Unidos contra o comediante Learnmore Jonasi, acusando-o de deturpar o significado de um dos cânticos mais emblemáticos do filme ‘O Rei Leão’. O processo, protocolado em um tribunal federal de Los Angeles, pede uma indenização que pode ultrapassar US$ 27 milhões, somando danos materiais e punitivos.
“Ali está um leão”?
A disputa gira em torno da interpretação do cântico “Nants’ingonyama bagithi Baba”, que abre a canção ‘Ciclo Sem Fim’ e se tornou um dos elementos mais reconhecíveis da trilha sonora do longa. A música foi composta por Hans Zimmer, com canções de Elton John e Tim Rice, enquanto Lebo M atuou como compositor e intérprete do cântico em línguas africanas.
De acordo com a ação judicial, Jonasi apresentou em um episódio do podcast One54 Africa — e também em apresentações de stand-up — uma tradução considerada incorreta e prejudicial à obra. No conteúdo que viralizou nas redes sociais, o comediante afirmou que a frase inicial significaria: “Olha, ali está um leão. Meu Deus.” A declaração foi recebida com risos pelos apresentadores, que comentaram que esperavam algo “mais bonito e majestoso”.
Os advogados de Lebo M sustentam que a tradução oficial, adotada inclusive pela Disney, é: “Salve o rei, todos nos curvamos na presença do rei”. Segundo a denúncia, a interpretação apresentada por Jonasi não apenas simplifica o conteúdo, mas distorce seu sentido simbólico e cultural. “A redução de Jonasi para ‘Olha, ali está um leão. Meu Deus!’ não é uma tradução simplificada — é uma distorção fabricada e trivializante, concebida como uma piada de mau gosto para obter lucro ilícito e destruir a obra imaginativa e artística de Lebo M“, afirma o processo.
A ação também destaca que o comediante teria apresentado sua versão “como um fato comprovado, não como comédia”, o que, segundo a defesa do compositor, retira a proteção normalmente concedida à sátira e à paródia. O texto jurídico argumenta ainda que Jonasi, ao fazer isso, “zombou do significado cultural do cântico com imitações exageradas”.

Repercussão e controvérsias
O caso ganhou repercussão após a circulação de trechos do podcast e de apresentações ao vivo, incluindo uma performance em Los Angeles na qual Jonasi teria recebido uma “ovação de pé” ao repetir a piada. De acordo com o processo, essa exposição teria afetado diretamente a reputação de Lebo M e suas relações comerciais, incluindo parcerias com a Disney e receitas provenientes de direitos autorais.
Além disso, a defesa afirma que, embora a palavra “ingonyama” possa ser traduzida literalmente como “leão”, seu uso na canção tem caráter metafórico e cerimonial, ligado a tradições culturais da África do Sul. A acusação sustenta que o comediante teria ignorado esse contexto ao apresentar a tradução de forma simplificada e literal, repercute o The Guardian.
A controvérsia também se estendeu para as redes sociais. Segundo a ação, Lebo M entrou em contato com Jonasi por meio do Instagram, afirmando que os comentários do comediante não faziam parte de um contexto humorístico e poderiam “apagar mais de 30 anos de trabalho”. Jonasi, por sua vez, discordou da avaliação.
Em declarações públicas, o comediante afirmou ser admirador do trabalho do compositor e disse que sua intenção era abrir espaço para discussão sobre o significado da música. “O humor sempre dá um jeito de iniciar uma conversa”, declarou em um vídeo publicado nas redes sociais. “Esta é a sua chance de realmente educar as pessoas, porque agora elas estão ouvindo.”
Apesar disso, Jonasi indicou que desistiu de uma possível colaboração com Lebo M após trocas de mensagens nas quais teria sido chamado de “autodepreciativo”. Ele também argumentou que suas apresentações abordam críticas mais amplas sobre representações da identidade africana em produções voltadas ao público internacional.
O processo inclui acusações como representação enganosa, difamação e interferência em vantagem econômica potencial. Os advogados de Lebo M afirmam que as declarações do comediante causaram prejuízos superiores a US$ 20 milhões, além de solicitarem cerca de US$ 7 milhões adicionais em danos punitivos.
Até o momento, Jonasi não possui advogado listado publicamente no caso, e não respondeu oficialmente aos pedidos de comentário enviados por veículos de imprensa. Já a Disney também não se manifestou sobre a disputa.