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As revelações dos textos das primeiras comunidades humanas

Pesquisadores conseguiram decifrar antigos textos cuneiformes guardados por mais de um século em um museu da Dinamarca

Tábuas textos Gilgamesh
Tábuas continham escritos sobre Gilgamesh - Troels Pank Arbøll/Universidade de Copenhague

Durante mais de cem anos, centenas de antigas tabuletas de argila com textos permaneceram praticamente esquecidas dentro do acervo do Museu Nacional da Dinamarca. Cobertas por símbolos de uma escrita há muito extinta, elas pareciam apenas fragmentos silenciosos de um passado remoto. Agora, graças a um grande projeto internacional de digitalização e tradução, arqueólogos finalmente começaram a decifrar esses textos — revelando um retrato surpreendentemente humano das primeiras civilizações da Mesopotâmia.

Os documentos incluem feitiços contra bruxaria, registros administrativos, correspondências políticas, instruções médicas, listas de reis lendários e até algo incrivelmente mundano: recibos relacionados à produção e distribuição de cerveja.

As tabuletas pertencem a diferentes períodos e regiões da antiga Mesopotâmia — território correspondente principalmente ao atual Iraque e partes da Síria — e algumas têm mais de 4 mil anos. Escritas em cuneiforme, considerado um dos primeiros sistemas de escrita da humanidade, elas ajudam a reconstruir o funcionamento das sociedades que deram origem às primeiras cidades organizadas do planeta.

Decifrando os textos

O trabalho faz parte do projeto “Hidden Treasures”, conduzido pela Universidade de Copenhague em parceria com o museu dinamarquês. Utilizando fotografia digital de alta resolução e novas técnicas de catalogação, pesquisadores conseguiram analisar e identificar centenas de textos que permaneciam parcialmente ignorados dentro da coleção.

Segundo os estudiosos, o aspecto mais fascinante da descoberta é justamente a variedade de assuntos presentes nas tabuletas. Longe de conter apenas registros oficiais ou religiosos, os documentos revelam detalhes extremamente cotidianos sobre a vida de povos que viveram há milhares de anos.

Entre os textos mais curiosos estão rituais mágicos usados para proteger reis contra feitiços e inimigos sobrenaturais. Uma das tabuletas descreve cerimônias realizadas durante a noite inteira, envolvendo cânticos, figuras moldadas em cera e barro e rituais de destruição simbólica contra supostas bruxas.

Esses textos ajudam a mostrar como religião, política e superstição estavam profundamente conectadas nas antigas sociedades mesopotâmicas. Para muitos governantes da época, ameaças sobrenaturais eram tratadas com a mesma seriedade que guerras ou crises políticas. Eclipse lunar, doenças ou fenômenos naturais podiam ser interpretados como sinais divinos de perigo iminente.

Outro documento chamou atenção por mencionar uma lista de reis históricos e lendários, incluindo o célebre Gilgamesh — personagem da Epopeia de Gilgamesh, considerada uma das obras literárias mais antigas do mundo. A presença de seu nome em registros administrativos alimenta novamente debates sobre a possível existência histórica da figura que inspirou o mito.

Pedra inscrita com a Epopéia de Gilgamesh / Crédito: Divulgação

Desbravando o cotidiano

Mas talvez os textos mais reveladores sejam justamente os mais banais.

Algumas tabuletas registram movimentações burocráticas rotineiras: controle de mercadorias, distribuição de alimentos, pagamentos e recibos comerciais. Entre eles aparecem referências à produção de cerveja, bebida extremamente importante nas sociedades mesopotâmicas. Em muitos contextos, trabalhadores recebiam parte de seus pagamentos em cerveja ou grãos destinados à sua fabricação.

os pesquisadores afirmam que o valor do projeto não está necessariamente em uma descoberta única e revolucionária, mas no conjunto de informações recuperadas. Cada pequeno texto contribui para reconstruir a vida social, econômica e religiosa das primeiras civilizações urbanas da humanidade.

A escrita cuneiforme surgiu há cerca de 5.200 anos na Mesopotâmia. Inicialmente, ela era usada principalmente para fins administrativos, como registrar estoques agrícolas, impostos e comércio. Com o tempo, o sistema evoluiu para abarcar literatura, leis, matemática, astronomia e correspondência política.

Os símbolos eram gravados em tabuletas de argila úmida utilizando uma haste de junco cortada em forma triangular. O resultado eram marcas em formato de cunha — daí o nome “cuneiforme”. Depois, as tabuletas eram secas ao sol ou cozidas, permitindo sua preservação por milênios.

Curiosamente, o interesse pelas origens da escrita voltou a crescer nos últimos anos. Pesquisas recentes sugerem que seres humanos já utilizavam sistemas organizados de símbolos há dezenas de milhares de anos, muito antes do surgimento do cuneiforme. Um estudo publicado em 2026 analisou marcas geométricas gravadas em objetos paleolíticos de até 40 mil anos e concluiu que elas possuíam padrões comparáveis aos primeiros sistemas de protoescrita.

Mesmo assim, muitos especialistas alertam que esses sinais antigos ainda não podem ser considerados “escrita” no sentido completo da palavra, já que não há evidências de que representassem diretamente linguagem falada.

É justamente aí que o cuneiforme mantém sua importância histórica central: ele representa uma das primeiras vezes em que a humanidade conseguiu transformar linguagem em registro permanente. A partir desse momento, sociedades humanas passaram a armazenar leis, contratos, mitos, cálculos e narrativas de forma muito mais complexa.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.