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As impressões digitais deixadas por artesãos que viveram em Jerusalém há 1500 anos

Impressões digitais foram encontradas preservadas em fragmentos de cerâmica por especialistas que atuavam em um sítio arqueológico de Israel no ano de 2020

Mais de um terço dos 230 cacos estavam cobertos por impressões digitais centenárias - Crédito: Divulgação/Dafna Gazit e Shay Halevi/Autoridade de Antiguidades de Israel

A descoberta de impressões digitais preservadas em fragmentos de cerâmica de aproximadamente 1.500 anos impressionou arqueólogos que atuavam em um sítio arqueológico de Israel no ano de 2020. A descoberta se deu em Motza, uma localidade situada nas colinas a oeste de Jerusalém.

As escavações no local haviam iniciado em novembro do ano anterior e revelaram vestígios de uma ocupação do início do período bizantino, entre os séculos 4 e 7. Entre as estruturas identificadas estavam uma igreja, uma prensa de vinho, uma prensa de azeite e um forno utilizado para a fabricação de cerâmica. Próximo a esse forno, os pesquisadores encontraram um depósito contendo centenas de fragmentos de lâmpadas, telhas e recipientes de barro.

Foi durante a análise desse material que a arqueóloga e especialista em cerâmica Shulamit Terem percebeu algo extraordinário. Mais de um terço dos cerca de 230 fragmentos de lâmpadas apresentava impressões digitais claramente visíveis. Muitas delas estavam preservadas com uma nitidez impressionante, que permitia distinguir detalhes normalmente difíceis de observar em objetos tão antigos.

A descoberta levantou uma série de perguntas, como, por exemplo, quem eram os artesãos que produziram aquelas peças? Quantas pessoas trabalhavam na oficina? Outra questão pertinente: seria possível determinar o sexo ou a idade dos oleiros?

Para encontrar respostas, os arqueólogos recorreram a peritos da polícia, especialistas acostumados a interpretar impressões digitais diariamente.

Analisando impressões

O interesse por impressões digitais antigas não era algo totalmente novo. Como apontou o portal Smithsonian, em diferentes partes do mundo, pesquisadores já haviam utilizado técnicas semelhantes para investigar populações do passado. Em 2019, por exemplo, um estudo realizado no sudoeste dos Estados Unidos analisou impressões digitais encontradas em cerâmicas produzidas por uma comunidade Pueblo entre os séculos 10 e 11. Os resultados indicaram que homens e mulheres participavam de forma praticamente igual da fabricação dos objetos.

Outro estudo, publicado em 2020, examinou impressões digitais preservadas em pinturas rupestres na Espanha com cerca de 7.000 anos de idade. A análise sugeriu que entre os artistas havia um homem adulto, provavelmente na faixa dos 30 anos, e uma menina de aproximadamente dez anos.

Segundo especialistas, esse tipo de pesquisa vem se tornando mais comum nos últimos anos graças ao avanço das técnicas de análise. A densidade e o espaçamento das cristas presentes nas impressões digitais podem fornecer indícios sobre idade e sexo dos indivíduos. A fonte explica que, em geral, impressões com maior densidade de cristas tendem a estar associadas a mulheres, enquanto uma densidade menor costuma indicar homens. Além disso, a distância entre as cristas aumenta à medida que as pessoas envelhecem.

Dezenas das impressões digitais eram idênticas – Crédito: Divulgação/Nora Rajs/Divisão de Identificação e Ciências Forenses, Polícia de Israel

No caso de Motza, muitas das impressões apareciam apenas parcialmente nos fragmentos de cerâmica, o que exigia um processo semelhante à montagem de um quebra-cabeça. O objetivo era reconstruir as marcas completas e verificar quais impressões pertenciam à mesma pessoa.

Para isso, os peritos utilizaram o Sistema Automatizado de Identificação de Impressões Digitais, conhecido pela sigla AFIS. Essa tecnologia compara características específicas das impressões, chamadas minúcias, como bifurcações, cruzamentos e terminações de linhas.

Detalhes chamam atenção

Os arqueólogos levaram caixas repletas de fragmentos ao laboratório policial, onde cada peça foi fotografada e catalogada. Lá, as imagens foram inseridas em um banco de dados criado especialmente para o projeto, permitindo que as impressões antigas fossem comparadas entre si.

À medida que a análise avançava, detalhes surpreendentes começaram a surgir. A qualidade da argila utilizada pelos artesãos bizantinos havia preservado as marcas com precisão extraordinária. Em alguns casos, era possível distinguir até mesmo os poros da pele responsáveis pela secreção de suor.

As impressões revelaram também aspectos da técnica de fabricação das lâmpadas. Como destacaram os pesquisadores, a maioria das marcas correspondia aos polegares direito e esquerdo dos artesãos, sendo que a profundidade das impressões indicava que os polegares eram pressionados com força contra a argila para moldá-la dentro das formas utilizadas na produção.

Além disso, outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: as mesmas impressões apareciam repetidamente tanto nas partes superiores quanto inferiores das lâmpadas. Isso sugeria que uma única pessoa realizava várias etapas do processo produtivo. Dezenas de impressões idênticas levaram o perito Ido Hefetz à conclusão de que havia um ceramista principal responsável pela maior parte da produção, enquanto que um ou dois auxiliares parecem ter participado da fabricação das demais peças.

Hefetz também aproveitou a oportunidade para testar uma das premissas centrais da datiloscopia: a ideia de que não existem duas impressões digitais idênticas. No fim, nenhuma das marcas encontradas nos fragmentos antigos apresentou correspondência com os registros modernos armazenados no banco de dados da polícia israelense, que reúne informações biométricas de mais de um milhão de pessoas. A investigação ainda constatou que os padrões fundamentais das impressões digitais observados nas peças bizantinas eram exatamente os mesmos encontrados em pessoas atuais.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.