Museu devolve obras de ceramista escravizado que desafiou leis da época
Após quase 200 anos, Museu de Belas Artes de Boston repassa duas obras de David Drake à família, em gesto inédito de reparação histórica e legado

Na década de 1850, o ceramista David Drake passava os dias moldando grandes potes de barro usados para armazenar alimentos, sobretudo em fazendas do sul dos Estados Unidos. Apesar da técnica e da escala de sua produção — foram milhares de peças ao longo da vida — ele jamais pôde reivindicar autoria ou propriedade de suas obras. Drake era um homem escravizado na Carolina do Sul.
Agora, quase 200 anos depois, o Museu de Belas Artes de Boston (MFA) devolveu duas de suas criações aos descendentes diretos do artista. Após a transferência, o museu recomprou a obra Poem Jar da família, enquanto a peça Signed Jar foi cedida ao acervo sob um acordo de empréstimo de longo prazo.
Nosso tataravô nunca pôde ter uma única peça de sua própria cerâmica, nem passá-la para seus filhos ou netos”, afirmou Pauline Baker, descendente de Drake, em um comunicado.
A iniciativa simboliza um gesto de reparação histórica. Embora a repatriação de obras e artefatos tenha crescido nos últimos anos, a devolução de peças criadas por um artista escravizado é considerada um marco inédito nos Estados Unidos.
Reparação histórica
O processo de devolução começou a partir de uma exposição de 2022, Hear Me Now: The Black Potters of Old Edgefield, South Carolina, organizada pelo MFA em parceria com o Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Durante a curadoria, o museu estreitou laços com a família de Drake — diálogo que abriu espaço para discutir a restituição das obras, conforme repercutido pela revista Smithsonian.
Nascido por volta de 1800, em Old Edgefield, na Carolina do Sul, Drake viveu em uma das regiões mais ativas da indústria cerâmica, impulsionada pelo trabalho de pessoas escravizadas. Seus potes, usados em larga escala para armazenamento, se destacavam por algo extremamente raro para o período: inscrições autorais.
Palavras gravadas no barro
Mesmo diante de leis que proibiam a alfabetização de pessoas escravizadas, Drake escrevia no barro. Em um de seus vasos, refletiu sobre a separação forçada de sua família, imposta pela escravidão: “Eu me pergunto onde está toda a minha relação / Amizade com todos — e todas as nações”, segundo o Boston Globe.
Outra peça emblemática, Poem Jar, carrega a frase: “Eu fiz este Jar = por dinheiro / Embora seja chamado de lixo Lucre”, termo que faz referência a lucro, reforçando a percepção do artista sobre a exploração de seu trabalho.
Ele também assinava como “Dave” ou “Dave the Potter” — um raro gesto de autoafirmação, em um contexto que tentava apagar identidades e individualidades negras.
Ele não deve ser lembrado apenas como artista, mas como alguém que desafiou leis feitas para silenciá-lo”, disse Yaba Baker, tataraneto de Drake, ao Boston Globe.
Para preservar o legado e administrar possíveis receitas ligadas às obras, a família criou o Dave the Potter Legacy Trust. O objetivo do grupo, além de honrar sua memória, é localizar outros descendentes e distribuir coletivamente eventuais lucros provenientes de seu trabalho.