A Coisa: o fóssil misterioso que se revelou o maior ovo de réptil já descoberto
Datado de 66 milhões de anos, um fóssil misterioso intrigou pesquisadores, até a descoberta de que ele pertenceu a um lagarto marinho pré-histórico de 60 metros

Um achado extraordinário foi realizado na Antártica com a descoberta do maior ovo de réptil já registrado. Este exemplar, com o tamanho aproximado de uma bola de futebol, representa o primeiro ovo fossilizado de casca mole encontrado no continente, e acredita-se que tenha sido posto por um réptil marinho extinto há cerca de 66 milhões de anos.
A pesquisa, publicada na revista Nature, sugere que um grande réptil marinho conhecido como mosassauro é o responsável pela postura deste ovo. Para Lucas Legendre, autor principal e pesquisador pós-doutorando da Escola de Geociências da Universidade do Texas em Austin, a descoberta é significativa por diversas razões.
“É de um animal do tamanho de um dinossauro grande, mas é completamente diferente de um ovo de dinossauro“, explicou Legendre. “É mais parecido com ovos de lagartos e cobras, mas é de um parente verdadeiramente gigante desses animais.”
Descoberta única
Um dos aspectos mais impressionantes dessa descoberta é que, até então, acreditava-se que os grandes répteis marinhos do Período Cretáceo não colocavam ovos. Segundo Legendre, “nada parecido com isso jamais foi descoberto”.
O fóssil, que mede 28 centímetros de comprimento e 18 centímetros de largura, foi inicialmente encontrado por cientistas chilenos há quase uma década. Durante anos, permaneceu sem identificação na seção chilena do Museu Nacional de História Natural, apesar de seu tamanho impressionante.

“O ovo de casca mole, quase completo e do tamanho de uma bola de futebol americano, é um dos maiores ovos já descritos”, afirmou Julia Clarke, também da Universidade do Texas.
Os cientistas apelidaram o espécime de “A Coisa“, em referência ao organismo alienígena misterioso que caiu na Antártica no filme de ficção científica e terror dirigido por John Carpenter — filme que, no Brasil, é conhecido pelo título de ‘O Enigma de Outro Mundo’. Ao contrário daquela criatura sombria, porém, este ovo provém de um animal bem mais compreensível.
Réptil marinho gigante
De acordo com a CNN, a mãe que o pôs teria alcançado pelo menos 60 metros de comprimento. A espécie foi nomeada Antarcticoolithus bradyi, e uma análise envolvendo 259 répteis modernos e seus ovos indica que este lagarto marinho pré-histórico era um mosassauro.
Os pesquisadores só perceberam que se tratava de um ovo após examinarem sua membrana com microscópios, momento em que o ovo “visivelmente colapsou e se dobrou”. Assim, ele é considerado um dos maiores ovos de casca fina já encontrados, perdendo apenas para o ovo da ave-elefante descoberto em Madagascar.
A estrutura do ovo apresenta semelhanças com os ovos da maioria das cobras e lagartos, sugerindo um estilo de vida ovovivíparo, onde o animal nasce imediatamente após a postura do ovo — tendo se desenvolvido dentro da casca enquanto ainda estava na mãe, conforme repercute o All That’s Interesting.
“Um ovo tão grande com uma casca relativamente fina pode refletir restrições derivadas associadas à forma do corpo, ao investimento reprodutivo ligado ao gigantismo e à viviparidade dos lepidossauros, em que um ovo ‘vestigial’ é posto e eclode imediatamente”, detalhou o estudo.

Dúvidas restantes
Naturalmente, este ovo já havia sido chocado há dezenas de milhões de anos. Embora os pesquisadores concordem amplamente que o animal dentro dele era um mosassauro, não se descarta a possibilidade de ser uma espécie ainda não identificada de dinossauro.
Os especialistas possuem evidências circunstanciais consideráveis para apoiar a identificação do animal. Ossadas tanto de filhotes quanto de adultos mosassauros e plesiossauros foram previamente encontradas nas proximidades, sugerindo que a área funcionava como uma espécie de “local de maternidade”.
A região realmente apresenta características ambientais adequadas à proteção. As mães poderiam ter colocado seus ovos em águas abertas, assim como fazem as cobras marinhas hoje em dia.
Outra teoria sugere que o réptil adulto teria se arrastado para a costa para formar um ninho improvisado com sua cauda antes da incubação do ovo. Em seguida, permitiu que os filhotes se aventurassem nas águas abertas como fazem as tartarugas marinhas atuais. Contudo, muitas perguntas permanecem sem resposta.
O que se evidencia é que este é o maior ovo de réptil já descoberto até hoje — e os estudos subsequentes sobre ele foram publicados juntamente com outro artigo que discute como os ovos de casca mole podem ter evoluído ao longo do tempo.