A casa de sítio em que o ‘Anjo da Morte’ nazista viveu escondido no interior de SP
Entre 1961 e 1969, uma casa de sítio no interior de SP foi lar de Josef Mengele, o sádico médico nazista conhecido como "Anjo da Morte"

Entre 1939 e 1945, a Europa viveu um dos períodos mais sombrios de sua história recente, com conflitos armados, perseguição sistemática de certos grupos, destruição e bombardeios de cidades e milhões de mortos: a Segunda Guerra Mundial. De um lado, os Aliados (coalizão liderada por potências como Reino Unido, Estados Unidos, União Soviética e França) lutavam para combater o avanço do domínio nazista, aliado ao Eixo (Alemanha, Japão e Itália), pelo continente.
Os nazistas foram responsáveis por orquestrar o Holocausto, o genocídio de cerca de seis milhões de judeus, em um processo que qualificavam como uma “limpeza” étnica. Tudo isso sob o comando do Führer e líder supremo nazista, Adolf Hitler, que tinha ao seu lado figuras como Heinrich Himmler (chefe da SS e da polícia), Joseph Goebbels (Ministro da Propaganda) e Hermann Göring (comandante da Luftwaffe e sucessor aparente).
Mas estes são apenas alguns dos nomes mais assombrosos do período. Outro nome que chama bastante atenção, especialmente para nós, brasileiros, é o de Josef Mengele, também chamado de “Anjo da Morte“, médico e oficial nazista do campo de concentração de Auschwitz — o que mais fez vítimas, das quais pelo menos 400 mil foram de responsabilidade direta de Mengele —, que, curiosamente, viveu seus últimos anos de vida aqui no Brasil, falecendo no dia 7 de fevereiro de 1979, aos 67 anos, em Santos, no litoral de São Paulo.
Antes disso, entre 1961 e 1969, Mengele viveu em uma casa no sítio Santa Luzia, localizado no bairro das Três Barras, nos arredores do município de Serra Negra, no interior de São Paulo. Quando estava por lá, ele, que era caçado no mundo inteiro, usava o nome de Pedro Húngarez, e fingia ser um homem naturalizado paraguaio com sotaque alemão (e que ainda arriscava algumas frases em italiano).
Fuga da Alemanha
Após a derrota dos nazistas, logo em 1945, Josef Mengele simplesmente desapareceu de Auschwitz. Ele ainda permaneceu quatro anos escondido na Alemanha, antes de cruzar a fronteira com a Áustria e, finalmente, vir para a América do Sul.
Antes de vir para o Brasil, chegou primeiro na Argentina (para onde também foi Adolf Eichmann, vale mencionar), depois foi para o Paraguai, onde se naturalizou em novembro de 1959. No documento oficial, consta inclusive que ele provou não possuir qualquer antecedente judicial ou policial, embora, naquele momento, fosse um dos homens mais procurados do mundo. Após isso, foi para o Uruguai, e, finalmente, chegou no Brasil.
“Aqui no estado de São Paulo, morou em Nova Europa, Serra Negra, Caieiras, Diadema e Embu. Sempre de forma discreta e ‘protegido’. […] Está claro que sempre recebeu ajuda durante sua vida no Brasil. Gente que o conhecia muito bem”, afirma o historiador Noedir Pedro Carvalho Burini, autor do livro ‘O Anjo da Morte em Serra Negra’, de 2013.

Amigo em Serra Negra
Ao lado do cineasta Marcelo Felipe Sampaio, Burini trabalhou no documentário ‘A Trilha dos Ratos‘, em que buscou montar um quebra-cabeça da passagem de Mengele por Serra Negra. E foi durante essas investigações que descobriram uma ligação entre o médico nazista e outro morador misterioso da cidade: Gunther Schouppe.
Conforme repercute o g1, Schouppe era um austríaco que lutou ao lado dos nazistas na Segunda Guerra, e chegou em Serra Negra pouco depois de Mengele, sendo conhecido por lá como Alemão. Segundo Burini, relatos de antigos moradores da região descreve Schouppe e Mengele como amigos, que passavam tempos juntos, subiam nas torres que construíram em suas residências e observavam as pessoas.
“Schouppe seria cabo da SS e, ferido em campo de batalha, conheceu Mengele em Auschwitz. Isso eu conto no meu trabalho”, observa Burini, que enfatiza que o austríaco não tinha qualquer crime de guerra registrado contra ele. “Nada consta em documentos. Apenas relatos de parentes.”
Vale mencionar que Schouppe faleceu no dia 7 de agosto de 1990, aos 68 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral seguido por uma parada cardíaca, e foi sepultado em Serra Negra.
Vida no sítio
Em entrevista ao g1, José Osmar Silotto, que trabalhava no sítio de Mengele com o pai, Eugênio, recorda que os funcionários chamavam o suposto “Pedro Húngarez” de “Pedrão”. “Pai, olha o Pedrão na janela”, disse ele certa vez ao pai, que lhe respondeu: “Vamos, menino. Ele está vendo se estamos trabalhando,” conforme recorda.

Apesar de entender bem o significado sombrio que carrega o nome de Josef Mengele à história da humanidade, Silotto não critica o médico nazista em momento algum de seu depoimento. “Sei de todo o mal que ele fez ao mundo, mas, durante nosso convívio, não tenho nada para falar”, comentou.
“Nos pagava em dinheiro e no dia certo. Ainda curou minha anemia com uma bebida à base de beterraba. Eu estava muito doente, na época diziam que eu tinha amarelão. Pediu ao meu pai que trouxesse beterraba e voltou com uma bebida. Se fosse veneno, eu teria morrido. Em dez meses eu estava forte”, acrescenta.
Silotto também contou que uma peculiaridade que chamava atenção sobre o “Anjo da Morte” era sua habilidade de empalhar passarinhos. Segundo ele, o trabalho era tão realista que até “parecia que o bichinho iria sair voando”.
Mistério
A residência de Mengele na casa do sítio é envolta em certa dose de mistério. Muita dúvida já existiu sobre se ele era hóspede ou dono da propriedade; isso porque um casal de húngaros é quem se dizia proprietários das terras.
Segundo o g1, Geza Stammer costumava passar a maior parte de seu tempo em São Paulo, mas aparecia frequentemente no sítio em Serra Negra, onde Gitta, sua esposa, permanecia com os dois filhos pequenos, enquanto Mengele passava ordens aos funcionários do campo. Os funcionários, por sua vez, descreviam a família como bastante discreta.

“A presença de Mengele na região me chamou a atenção. Não tinha muitas publicações sobre o assunto e resolvi me aprofundar. Descobri fatos novos depois de muita investigação”, comentou Burini ao g1. Vale acrescentar que o historiador também visitou Paraguai e Uruguai, e foi ele quem descobriu sobre sua naturalização paraguaia, bem como seu casamento com a cunhada no Uruguai, para permanecer como herdeiro perante à família, na Alemanha.
Outro aspecto que chamou a atenção de Burini nas suas investigações foi a torre construída no telhado da casa do sítio em que Mengele ficou. Com aproximadamente dez metros de altura, ao observá-la é possível “perceber que é semelhante às de Auschwitz. É um local alto, que oferece visão ampla de toda a região. Ele mesmo ajudou a construí-la.”
Ainda hoje, a casa de Mengele em Serra Negra segue em pé, e frequentemente recebe visitas guiadas por Burini para revelar o passado sombrio que a propriedade do interior de São Paulo possui.