Vômito fossilizado revela nova espécie de pterossauro brasileiro
Fóssil achado na Bacia do Araripe revelou pterossauro inédito que filtrava plâncton; espécie foi descrita a partir de um raro vômito fossilizado

Em um novo artigo publicado na segunda-feira, 10, um fóssil encontrado na Bacia do Araripe, no nordeste brasileiro, revelou ao mundo uma nova espécie de réptil voador que viveu na mesma época dos dinossauros.
O animal se trata do primeiro pterossauro comedor de plâncton (microrganismos que fazem parte dos ecossistemas aquáticos) já identificado nos trópicos, com cerca de 110 milhões de anos. O artigo está publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.
Identificada a partir de fósseis, a nova espécie batizada de Bakiribu waridza estava preservada em um vômito fossilizado. O nome faz parte de uma homenagem à cultura local, levando em conta também a dentição em forma de pente do animal.
Na língua do povo Kariri, “bakiribu” significa “pente” — em referência à dentição tão densa que se assemelha a um pente — enquanto “waridza” quer dizer “boca”.
Pistas sobre o predador do Araripe
De acordo com o estudo, o material encontrado apresenta sinais de fossilização, sendo definido como “uma massa de material indigesto”. Além disso, a confirmação surgiu porque havia também restos de quatro peixes, conforme repercute reportagem de Carlos Madeiro no UOL.
Depois de ser feita uma análise, o resultado sugeriu que o predador consumiu o pterossauro primeiro e acabou vomitando o animal devido a desconforto ou obstrução gerada pelos dentes e ossos da presa.

Segundo o que relatam os pesquisadores, o predador pode ser um espinossaurídeo, considerado uma das maiores espécies de dinossauro que habitaram a Bacia do Araripe — eles poderiam chegar a 18 metros de comprimento.
Essa descoberta reúne várias camadas de excepcionalidade: uma espécie totalmente nova de um animal que viveu na era dos dinossauros, pertencente a um grupo nunca antes registrado no Brasil. É a primeira espécie extinta já descrita a partir de um vômito fossilizado! Isso é algo realmente extraordinário! É como ganhar na mega-sena da paleontologia… o tipo de achado que acontece uma vez na vida”, diz Aline Ghilardi, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e uma das pesquisadoras responsáveis pelo achado, à reportagem.
De “peixe indeterminado” a espécie inédita
Sem registros do local exato da descoberta, o fóssil integrou a coleção do Museu Câmara Cascudo, em Natal. Lá, permaneceu por 40 anos catalogado como um “peixe indeterminado”.
Aline explica, no entanto, que a origem do material é a Formação Romualdo, na Bacia do Araripe. Aliás, essa unidade geológica é conhecida mundialmente por seus “fósseis excepcionais”. Com isso, o animal foi descrito como o mais novo membro da família Ctenochasmatidae. O grupo se destaca pelas adaptações alimentares especializadas em filtração.
Além disso, esses pterossauros prosperaram principalmente no Jurássico Superior, entre 163,4 e 145 milhões de anos. Ainda assim, não tiveram a mesma diversidade até o final do Cretáceo Inferior.
Mais do que a descoberta, o estudo também oferece informações sobre a evolução e dispersão desses animais. Considerado um achado fundamental por responder a algumas questões científicas. Como, por exemplo, a nova espécie tem características morfológicas tanto de parentes mais antigos, como Ctenochasma e de formas mais jovens e especialistas, como o Pterodaustro.
Para os pesquisadores, o achado reforça a importância científica da Bacia do Araripe, com um fóssil brasileiro estudado por brasileiros e mantido no país. Após mais de 50 anos de pesquisas na região, este é o primeiro pterossauro arqueopterodactyloide registrado ali.