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Vômito fossilizado revela dieta de predador mais antigo que os dinossauros

Fóssil de vômito de 290 milhões de anos encontrado na Alemanha indica hábitos alimentares de predador mais antigo que os dinossauros; confira!

Representação artística de predador pré-histórico vomitando / Crédito: Divulgação/Sophie Fernandez

Um estudo publicado no fim de janeiro na revista Scientific Reports analisou o que é considerado o mais antigo vômito fossilizado já identificado em um ecossistema terrestre. Datado de cerca de 290 milhões de anos, o material remonta ao Permiano Inferior e oferece novas pistas sobre as cadeias alimentares que existiam antes do surgimento dos dinossauros.

O fóssil foi encontrado no sítio de Bromacker, na região central da Alemanha, área que, à época, integrava um vale montanhoso situado no interior do supercontinente Pangeia. Segundo a pesquisa, o material corresponde ao vômito contendo ossos parcialmente digeridos de pelo menos dois pequenos répteis e um anfíbio. Ao todo, foram identificados 41 fragmentos preservados.

Para Arnaud Rebillard, do Museu de História Natural de Berlim, o achado “é como uma fotografia de um momento no passado que nos conta algo sobre o animal que ali vivia”, disse, em entrevista à Science News. O regurgitalito — termo usado para designar vômito fossilizado — amplia o entendimento sobre os ecossistemas terrestres e suas redes alimentares em um período muito anterior à ascensão dos dinossauros.

Os fósseis foram localizados em 2021, e as conclusões apresentadas agora resultam de uma análise detalhada de cada fragmento, realizada por meio de digitalização 3D com microtomografia de raios X. Os modelos revelaram ossos pertencentes a diferentes animais reunidos em um mesmo conjunto, o que indica que passaram pelo sistema digestivo de um único predador.

Detalhes do estudo

Exames químicos também foram conduzidos. Os pesquisadores identificaram ao redor dos ossos uma matriz com baixa concentração de fósforo — característica que foi determinante para descartar a hipótese de que o material fosse fezes fossilizadas, já que excrementos tendem a apresentar níveis mais elevados do mineral, repercute a Revista Galileu.

Embora o predador responsável por regurgitar os ossos não tenha sido identificado com precisão, os pesquisadores apontam semelhanças com animais que lembram os atuais lagartos-monitores, como o dragão-de-komodo. Entre as hipóteses consideradas mais prováveis estão os gêneros Dimetrodon e Tambacarnifex. Apesar da aparência reptiliana, ambos pertencem ao grupo dos sinapsídeos, que inclui mamíferos e seus parentes extintos.

Vale mencionar que o comportamento de regurgitar partes difíceis de digerir, como ossos, é observado em diversos predadores atuais. Ainda que não seja possível afirmar com certeza que o fóssil tenha se originado por esse motivo, essa é considerada uma explicação plausível para a formação do regurgitalito.

Fósseis associados a predador pré-histórico descobertos na Alemanha / Crédito: Divulgação/Arnaud Rebillard

Entre os restos identificados, os cientistas distinguiram dois pequenos répteis semelhantes a lagartos e um osso de membro de um herbívoro maior, também com características reptilianas. O conjunto sugere que o predador não tinha uma dieta especializada, alimentando-se de diferentes tipos de presas disponíveis no ambiente.

Os pesquisadores também consideram praticamente certo que os três animais encontrados no material foram consumidos pelo mesmo indivíduo. “Podemos afirmar que esses três animais viviam exatamente no mesmo lugar e na mesma época, talvez com uma semana de diferença ou até mesmo um dia de diferença”, disse Rebillard.

Ecossistema terrestre primitivo

A descoberta ganha relevância adicional porque o sítio de Bromacker preserva um retrato raro de um ecossistema terrestre primitivo. Predadores mais antigos capazes de se locomover em terra costumavam habitar ambientes semiaquáticos e manter dietas restritas a crustáceos e peixes. Por isso, registros de fezes e vômitos fossilizados são menos comuns em ambientes continentais do que em aquáticos.

Nesse contexto, o regurgitalito alemão representa uma fonte valiosa para compreender a fauna terrestre e as interações ecológicas de quase 300 milhões de anos atrás. “Estamos falando de ecossistemas com quase 300 milhões de anos”, reforçou Rebillard. “Portanto, ter uma visão temporal tão precisa disso, do dia em que viviam, na mesma área e no mesmo momento, é extremamente fascinante”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.