Saiba o que revelam esses itens de ouro encontrados em naufrágio do século 18
Navio capturado por pirata em 1717 afundou durante uma tempestade na costa de Massachusetts, levando consigo uma carga valiosíssima composta por metais preciosos

Um estudo publicado em 23 de março na revista Heritage Science revisita um dos episódios mais simbólicos da era da pirataria e do comércio atlântico nas Américas, trazendo novas interpretações a partir de evidências materiais. A pesquisa analisa artefatos recuperados do naufrágio do Whydah Gally, localizado em 1984 na costa de Cape Cod, nos Estados Unidos, e questiona uma antiga narrativa europeia: a de que comerciantes da África Ocidental adulteravam o ouro que comercializavam.
O navio, capturado em 1717 pelo pirata Samuel Bellamy, afundou durante uma tempestade ao largo de Massachusetts, levando consigo metais preciosos, bens comerciais e vestígios diretos do tráfico transatlântico. Hoje, com mais de 200 mil artefatos resgatados, o conjunto permite reavaliar não apenas práticas econômicas da época, mas também preconceitos históricos consolidados.
Entre os achados, destacam-se mais de 300 peças de ouro associadas ao povo Akan, da África Ocidental, integrante de uma das principais redes comerciais da chamada “Costa do Ouro”. Segundo o portal Galileu, durante séculos, relatos europeus acusaram esses comerciantes de misturar o metal com materiais de menor valor — como cobre, prata ou mesmo areia —, prática que supostamente aumentaria o volume do ouro vendido. Essas alegações contribuíram para alimentar uma visão de desconfiança em relação aos mercados africanos.

Uma nova direção
Os novos dados, porém, apontam em outra direção. Por meio de técnicas como fluorescência de raios-X e microscopia eletrônica, os pesquisadores analisaram 27 amostras de ouro provenientes do naufrágio. Os resultados indicam concentrações que variam entre 73,5% e 96,7% de ouro, uma faixa compatível com depósitos naturais do Cinturão Aurífero Ashanti, principal fonte geológica do metal explorado pelos Akan.
Segundo Tobias Skowronek, da Universidade de Bonn, a presença de elementos como prata e cobre não deve ser interpretada como indício de fraude, mas como característica natural do minério. “Não existe ouro 100% puro na natureza”, afirmou em entrevista ao The New York Times.
Os autores do estudo ressaltam, contudo, que as análises exigem cautela. Após mais de três séculos submersas, as peças sofreram contaminação por concreções metálicas, o que pode interferir parcialmente nas medições. Ainda assim, os dados obtidos em áreas menos afetadas são considerados a melhor aproximação possível da composição original.
Em contraste com os relatos coloniais, as evidências sugerem que o ouro comercializado pelos Akan preservava as propriedades naturais de sua origem geológica, sem sinais de adulteração sistemática em larga escala.

Implicações históricas
Para além da dimensão material, os resultados têm implicações históricas mais amplas. O início do século 18 foi um período de transformações na África Ocidental, marcado pela ascensão do Reino Ashanti e pelo fortalecimento de uma classe mercantil africana. Paralelamente, a descoberta de novas jazidas na América portuguesa começava a redesenhar o comércio global de metais preciosos.
Os pesquisadores destacam que o debate permanece aberto e que novas análises, com técnicas mais avançadas, poderão refinar a identificação da origem das peças e explorar possíveis conexões com outros mercados, como o sul-americano. Ainda assim, o conjunto estudado já representa o maior acervo de ouro Akan analisado em um contexto arqueológico bem datado até o momento.