Sacrifício de crianças incas estaria relacionado à expansão imperial, aponta estudo
Novo estudo arqueológico concluiu que sacrifício de crianças incas teria sido praticado para reforçar a autoridade imperial em regiões distantes da capital

A Donzela de Llullaillaco, também conhecida como La Doncella, é uma das mais impressionantes descobertas relacionadas ao Império Inca já feitas. Estamos falando de uma das três múmias de crianças sacrificadas encontradas no ano de 1999 perto do cume do vulcão Llullaillaco, na fronteira entre a Argentina e o Chile. Agora, um novo estudo sobre plantas depositadas ao lado da adolescente está ajudando os pesquisadores a determinar com mais precisão quando a cerimônia ocorreu e quais podem ter sido suas motivações.
Encontrada a mais de 6.700 metros de altitude, a Donzela foi preservada de forma extraordinária graças às condições frias e secas da montanha. Como destaca o portal Archaeology Newss, o excelente estado de conservação permitiu aos cientistas reconstruir diversos aspectos dos últimos meses de vida das crianças.
Pesquisas anteriores já haviam revelado que elas passaram por mudanças na alimentação antes da morte. Nos meses que antecederam o ritual, receberam alimentos considerados nobres na sociedade inca, além de folhas de coca e bebidas alcoólicas. Essas práticas faziam parte da capacocha, uma cerimônia religiosa patrocinada pelo Estado que envolvia o sacrifício de crianças. Ao final do processo, elas eram levadas a santuários localizados em grandes altitudes, onde permaneciam após a morte.
Quando ocorreu?
Apesar dos avanços no entendimento sobre a vida dessas crianças, uma questão permanecia sem resposta: quando exatamente ocorreu o sacrifício? As primeiras análises de radiocarbono realizadas em fios de cabelo indicavam que as mortes haviam ocorrido em algum momento entre 1430 e 1520, um intervalo de quase um século.
Para reduzir essa margem de incerteza, uma equipe internacional voltou sua atenção para restos vegetais encontrados no sepultamento. Entre os objetos depositados junto à Donzela estavam milho, mandioca e folhas de coca. Como essas plantas provavelmente foram colhidas pouco antes da cerimônia, elas fornecem uma referência temporal mais precisa do que os próprios corpos.
Por meio de técnicas de datação por radiocarbono, análises isotópicas e modelos estatísticos, os pesquisadores chegaram à conclusão de que o sacrifício ocorreu entre 1462 e 1507, com a data mais provável situando-se por volta de 1499.
Conforme essa estimativa, a cerimônia teria ocorrido em um período de intensa expansão do Império Inca. Como explica a fonte, durante os reinados de Topa Inca e de seu filho Huayna Capac, o império ampliou seu domínio sobre vastas áreas da América do Sul. A região de Llullaillaco havia sido incorporada recentemente aos territórios controlados pelos incas.
Funções da cerimônia
Segundo os pesquisadores, a cerimônia pode ter desempenhado tanto funções religiosas quanto políticas. Além de homenagear divindades associadas às montanhas sagradas, os rituais de capacocha serviam para reforçar a autoridade imperial em regiões distantes da capital, Cuzco. Grandes celebrações patrocinadas pelo Estado ajudavam a fortalecer os vínculos entre as comunidades locais e o governo central.
Relatos produzidos após a conquista espanhola mencionam viagens de Huayna Capac pelas províncias do sul do império e descrevem importantes oferendas realizadas aos deuses. Embora não exista um documento que conecte diretamente esses registros ao sepultamento da Donzela de Llullaillaco, a nova cronologia sugere que ambos ocorreram dentro do mesmo contexto histórico. Os resultados reforçam a ideia de que o sacrifício das crianças teria ajudado a consolidar o poder inca em áreas recém-incorporadas ao império.
Os pesquisadores esperam que estudos semelhantes em outros sítios arqueológicos de alta altitude ajudem a compreender melhor o papel dessas cerimônias na organização política e cultural do Império Inca.