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Crianças da Idade do Bronze teriam morrido por epidemias

Esqueletos de crianças encontrados por arqueólogos em Camino del Molino revelam doenças respiratórias frequentes

Indivíduo S168 colocado em decúbito ventral com as pernas hiperflexionadas e Fotografia do local do sepultamento após a limpeza da superfície. Exemplos de posições de sepultamento de indivíduos não adultos
Indivíduo S168 colocado em decúbito ventral com as pernas hiperflexionadas e Fotografia do local do sepultamento após a limpeza da superfície. Exemplos de posições de sepultamento de indivíduos não adultos - Créditos: Divulgação/International Journal of Paleopathology

Em Camino del Molino, a sudeste da Ibéria, na Espanha, um sítio arqueológico funerário descobriu que, durante a Idade do Bronze, uma comunidade enfrentava sérios problemas com doenças respiratórias frequentes.

Datada de 3.000 a.C., o local contém restos de mais de 1.300 pessoas, tendo sido usada como região funerária por 700 anos. Desse modo, a vala oferece uma verdadeira janela para o passado.

Contudo, o que mais chamou a atenção dos arqueólogos, foi a recuperação de 48 esqueletos intactos de jovens e crianças. Nesses ossos, sinais de doenças respiratórias e porosidade óssea podem dar indícios de epidemias localizadas.

Os esqueletos das crianças

Conforme o artigo publicado na revista International Journal of Paleopathology, os pesquisadores foram atrás, nas ossadas, de possíveis doenças do passado. Assim, descobriram que boa parte das crianças tinham falecido de uma doenças respiratória mortal.

Dos 48 indivíduos, 91,7% apresentaram alterações esqueléticas por conta da doença. Desses, 43, ou 89,6%, apresentaram esqueletos porosos em regiões específicas do corpo. No entanto, os maiores sinais de doenças respiratórias foram encontrados em 33 corpos, ou seja, 68,8% dos jovens enterrados.

Símbolos de doenças nos ossos infantis – Créditos: Divulgação/International Journal of Paleopathology

No mesmo sentido, a co-ocorrência de lesões porosas e alterações ósseas relacionadas à infecção ocorreu em 60% dos sujeitos. Porém, o dado que mais chama a atenção é que as crianças com lesões esqueléticas possuíam 11 vezes mais chances de ter a doenças, do que as que não apresentavam a característica.

Nesse sentido, a maioria das alterações se demonstraram como pequenos arranhões na área interna do crânio, crescimento anormal dos ossos da coluna vertebral, pelve e região do quadril. Indicando um possível caso de tuberculose ou alguma outra doença que circule pelos sangue.

Dessa forma, a principal autora do estudo, Sonia Díaz-Navarro, argumenta que a probabilidade é de infecções repetidas e duradouras e não de um único episódio de doenças. 

Inclusive, essa seria uma explicação para a maioria dos jovens terem entre um e quatro anos e dez a quatorze anos. Durante essas idades os jovens ficam mais suscetíveis a doenças respiratórias.

Interpretação e características

Conforme a Archaeology Magazine, muito provavelmente a disseminação das doenças partiu de contextos em que as crianças dormiam próximas às fogueiras e inalavam fumaças frequentemente. Ao mesmo tempo, o convívio em regiões extremamente empoeiradas pode ter intensificado os óbitos.

Contudo, uma característica marcante é que, quando enterradas, as crianças marcadas pela doenças não recebiam um tratamento diferente de outras. Significando que o grupo não perpetuava formas de segregação funerária. Inclusive, indivíduos com condições visíveis de saúde foram enterrados ao lado de outros no mesmo ambiente comunitário.

De todo modo, a região de Camino del Molino, devido à quantidade anormal de esqueletos infantis bem preservados, é uma rara oportunidade de estudar a saúde infantil como um grupo e não sobre casos isolados.

Assim, é provável que estudos futuros foquem em estudar as bio-moléculas, íons e o DNA desses indivíduos para analisarem a semelhança das bactérias e/ou os resquícios delas. Por enquanto, se espera que as análises levem à tuberculose.

Apesar da tristeza que é ter crianças falecendo, seus esqueletos podem nos guiar para novas formas de se ver o mundo durante a Idade do Bronze.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: