O santuário de Mitra que vem desafiando o que se sabe sobre o culto à divindade
Pesquisadores realizaram estudos relacionados a antigo santuário de Močići, situado próximo à antiga cidade de Epidaurum, na atual Croácia

O culto à divindade iraniana Mitra teve sua origem nas antigas tradições religiosas da Pérsia, chegando, séculos mais tarde, ao Império Romano. Entre os séculos 2 e 4 d.C., essa crença deu origem ao mitraísmo romano, uma religião que se espalhou por diversas partes do império e deixou numerosos santuários.
Um estudo recente, porém, revelou um local que desafia muitas das ideias tradicionais sobre a forma como os seguidores de Mitra praticavam sua religião. Trata-se do santuário de Močići, situado acima da costa do Mar Adriático, próximo à antiga cidade de Epidaurum, na atual Croácia.
A maioria dos templos mitraicos conhecidos apresenta características arquitetônicas bastante semelhantes. Em geral, consistem em espaços fechados e alongados, com bancos laterais destinados a refeições rituais e uma representação central de Mitra sacrificando um touro. Esses santuários foram encontrados em diferentes regiões do Império Romano, desde centros urbanos até fortificações militares.
Em Močići, entretanto, o cenário é completamente diferente. Como explica o portal Archaeology News, em vez de um templo construído, o principal relevo de Mitra foi esculpido diretamente em uma formação de calcário localizada acima de uma caverna natural. A cena segue a iconografia clássica do mitraísmo romano: o deus aparece matando o touro, acompanhado por figuras tradicionais como o cão, a serpente, o escorpião e os portadores de tochas. Nos cantos superiores também estão presentes representações associadas ao Sol e à Lua.
Apesar de manter os símbolos habituais, o local não possui paredes, teto nem ao menos bancos para cerimônias coletivas. A própria caverna possui apenas cerca de 17,7 metros quadrados, espaço insuficiente para acomodar os banquetes rituais frequentemente associados ao culto. Além disso, o relevo é mais facilmente observado do lado de fora do que do interior da gruta.
Para compreender melhor a organização do santuário, os pesquisadores utilizaram fotogrametria e medições detalhadas do terreno. Os resultados mostraram que a caverna está inserida em uma depressão natural cercada por uma área aberta com aproximadamente 120 metros quadrados. Essa configuração sugere que os rituais eram realizados principalmente ao ar livre, utilizando a paisagem como parte integrante da experiência religiosa.
Outro aspecto importante é a presença de uma nascente permanente nas proximidades. A água corre durante todo o ano entre as formações calcárias da região. Em diversas partes do Império Romano, os santuários dedicados a Mitra costumavam reproduzir artificialmente cavernas e fontes. Em Močići, porém, esses elementos já existiam naturalmente, dispensando qualquer grande intervenção humana.
Um segundo relevo
Os arqueólogos também identificaram um segundo relevo dentro da caverna, possivelmente associado a Silvano, divindade romana ligada às florestas, aos pastores e à vida rural. A presença dessa figura faz sentido em uma região cuja economia dependia fortemente do pastoreio e do acesso a fontes de água para os rebanhos.
Os pesquisadores destacam que o local representa um encontro singular entre diferentes tradições. Elementos ligados ao antigo Mitra iraniano, como a associação com a luz, a pedra e as forças que sustentam a vida, aparecem combinados com práticas religiosas romanas e com características específicas da paisagem dálmata.
A descoberta desafia uma antiga ideia, a de que o mitraísmo seguia um modelo arquitetônico rígido em todo o império. Na verdade, em vez de reproduzir sempre os mesmos templos, os praticantes podiam adaptar seus rituais às condições locais. Em Močići, rochas, cavernas, fontes e espaços abertos desempenharam o papel de cenário sagrado.