Massacre de Nanquim: A Guerra antes da Guerra
Antes da invasão da Polônia, a brutalidade do expansionismo japonês na China e o Massacre de Nanquim já avisavam o tipo de barbárie que definiria a Segunda Guerra Mundia

Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, a memória coletiva costuma voltar-se imediatamente para a invasão da Polônia, em setembro de 1939. Foi naquele momento que Reino Unido e França declararam guerra à Alemanha, transformando um conflito regional em uma guerra de alcance global. Entretanto, muito antes desse episódio, já existiam sinais claros de que o mundo caminhava para uma tragédia de proporções inéditas. Um desses sinais surgiu na Ásia.
Enquanto a atenção das grandes potências estava concentrada nos movimentos de Adolf Hitler na Europa, o Japão avançava sobre o território chinês. A expansão japonesa não era um acontecimento isolado nem uma simples disputa territorial. Ela fazia parte de um projeto muito mais amplo, alimentado por uma ideologia nacionalista e por uma visão de superioridade racial que ganhava força dentro do Império do Sol Nascente.
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Ideologia do Império do Sol Nascente
Os líderes militares japoneses acreditavam na chamada minzoku no yuetsusei, a ideia de superioridade racial que se apoiava em concepções nacionalistas e na convicção de que tudo aquilo que não fosse japonês era inferior. Essa crença foi reforçada pelo xintoísmo e pela mitologia imperial que apresentava o imperador como descendente dos deuses.
Ao longo dos anos, tais conceitos foram incorporados ao sistema educacional e amplamente difundidos pela propaganda estatal. O objetivo era justificar a expansão territorial japonesa e preparar a população para uma política agressiva de conquistas militares.
O conceito de Yamato-damashii, o chamado “espírito japonês”, exaltava a coragem, a pureza e a lealdade da raça nipônica. Paralelamente, consolidava-se a ideia de que os internacionais tinham uma missão especial de liderança sobre os demais povos da Ásia.
Essa visão ficou conhecida como Hakko Ichiu, expressão que significa “os oito cantos do mundo sob o mesmo teto”. Na prática, tratava-se da justificativa ideológica para a expansão imperial. E os efeitos dessa mentalidade logo se tornariam evidentes.
Passividade internacional
Antes mesmo da eclosão formal da Segunda Guerra Mundial na Europa, o Japão já havia iniciado sua campanha militar na China. O avanço japonês produziu uma série de atrocidades que demonstravam o grau de brutalidade que caracterizaria o conflito nos anos seguintes. A política internacional não compreendeu a gravidade daqueles acontecimentos.
Enquanto França e Reino Unido negociavam com Hitler na Europa, permitindo sucessivas concessões territoriais, o Japão expandia sua presença no Oriente sem encontrar resistência internacional proporcional à violência de suas ações. Foi nesse contexto que ocorreu um dos episódios mais brutais do século 20.
Em 1937 e 1938, após a Batalha de Shanghai, as forças internacionais ocuparam a cidade de Nanquim, então capital da China. O que aconteceu em seguida transformou-se em um dos piores crimes de guerra da história.
O Massacre de Nanquim
O chamado Massacre de Nanquim foi consumado graças à passividade das grandes potências, que não figuravam como obstáculo à expansão japonesa. A comunidade política internacional não se deu por aludida. A diplomática, menos ainda. O Japão avançava. Ninguém reagia. E Nanquim pagaria o preço.
A cidade, cujo nome significa “capital do sul”, localiza-se no Delta do Rio Yangtzé, uma das regiões mais populosas do planeta. Estima-se que cerca de 300 mil habitantes foram mortos pelos japoneses em apenas seis semanas. Seis semanas. Em pouco mais de um mês, a violência atingiu uma escala tão devastadora que o episódio se tornou um símbolo dos excessos cometidos pelo expansionismo japonês.
Mas o Massacre de Nanquim não foi um acontecimento isolado. Ele representava uma amostra daquilo que estava por vir.
O mesmo sistema de crenças que permitiu a ocupação da cidade também influenciou a forma como os militares japoneses tratavam populações civis e prisioneiros de guerra. A obra destaca que os japoneses demonstravam desprezo pelas etnias consideradas inferiores e chegaram a realizar experimentos biológicos raciais em campos de concentração.
A ideia de superioridade racial servia como justificativa para maus-tratos, violência extrema e desumanização dos povos submetidos à ocupação. Por isso, o Massacre de Nanquim pode ser entendido como um prenúncio dos horrores que marcariam a Segunda Guerra Mundial. Antes das câmaras de gás nazistas. Antes dos campos de extermínio. Antes dos ataques kamikazes. Antes dos milhões de mortos espalhados pelos campos de batalha da Europa, da África e do Pacífico. Nanquim já demonstrava até onde poderiam chegar regimes alimentados por ideologias expansionistas e raciais.
Futuro ignorado
O mais impressionante é que os sinais estavam visíveis. A ocupação da cidade chinesa aconteceu diante dos olhos do mundo. Assim como a anexação da Áustria por Hitler e a ocupação da Albânia por Mussolini, o massacre revelava que as potências do Eixo não estavam apenas ampliando territórios. Estavam construindo projetos de dominação sustentados pela violência sistemática.
Mesmo assim, ninguém leu corretamente o futuro imediato. Os alemães avançavam na Europa. Os italianos cruzavam o Adriático. Os japoneses ampliavam sua presença na China. As pistas eram evidentes. Mas a comunidade internacional continuou apostando na diplomacia e na esperança de que aquelas agressões fossem episódios limitados.
Nanquim mostrou o contrário. Mostrou que a guerra que se aproximava seria diferente. Mais brutal. Mais destrutiva. Mais desumana.
Quando a Segunda Guerra Mundial começou oficialmente em setembro de 1939, muitos dos elementos que caracterizariam o conflito já haviam aparecido na China. O expansionismo territorial, a ideologia racial, a violência contra civis e o fracasso das potências em reagir estavam todos presentes.
Por isso, o Massacre de Nanquim não foi apenas uma tragédia chinesa. Foi um aviso. Um aviso que o mundo ignorou. E que antecipou, de forma assustadora, os horrores que logo mergulhariam o planeta inteiro na mais sangrenta guerra da história.
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