Pesquisa revela oferendas de moradores de Pompeia aos deuses
Análise de queimadores de incenso identificou vestígios de oferendas que provam existência de grande rede comercial

Um conjunto de oferendas queimadas foi deixado em um altar doméstico no norte de Pompeia, há cerca de 2.000 anos, por um antigo romano. O ritual no incensário resultou em um resíduo cinza, encontrado por arqueólogos em 1980.
Pesquisadores fizeram a primeira análise do conteúdo e publicaram na revista Antiquity. O conteúdo cinzento foi identificado como uma resina que se originou na África subsaariana ou em uma floresta tropical asiática.
As descobertas oferecem evidências adicionais de rituais escritos na literatura e arte antigas. O autor principal e arqueólogo, Johannes Eber, relatou em comunicado à Antiquity que os romanos queimavam substâncias aromáticas como incenso , bem como várias plantas e ervas, em seus altares como oferendas aos deuses.
Em outro comunicado para a Universidade de Bonn, Eber afirma que este é o primeiro estudo a identificar quais fragrâncias eram de fato queimadas nas práticas de culto doméstico em Pompeia. “Juntamente com plantas regionais, encontramos vestígios de resinas importadas, um indicador das amplas conexões comerciais de Pompeia”.
Oferendas nos incensários
Uma equipe internacional examinou dois incensários, que foram desenterrados em Pompeia e seus arredores. O primeiro, encontrado em 1954, tinha formato de cálice e estava em uma residência que estava sendo transformada em uma hospedaria na época da erupção do Vesúvio, em 79 d.C.

Nele continha restos de plantas lenhosas, carvalho e louro, que podem ter sido usadas como combustível para um sacrifício. Apesar disso, os pesquisadores sugerem que o material rico em carvão pode ser resíduos da queima do incenso ou de uma planta.
O segundo incensário é uma tigela decorada com esculturas de três mulheres, o estudo sugere que elas eram indivíduos falecidos venerados após a morte.
Assim como o primeiro, ele também continha plantas lenhonhas e alguns resíduos que nunca foram registrados na Pompeia. O elemi, é uma árvore nativa de regiões tropicais da África e da Ásia, ele é diferente do incenso que provém de árvores da África Oriental e da Península Arábica.
Eber relatou a Benjamin Taub, do IFLScience, que os egípcios utilizavam o elemi no processo de mumificação, mas esta é a primeira vez que ele encontrou essa resina em um contexto romano.
Além disso, foi encontrado, no segundo queimador de incenso, biomarcadores de gordura e uva associadas ao vinho. O biomarcador indica que o recipiente pode ter sido usado para praefatio, ritual que oferece vinho e incenso aos Deuses simultaneamente.
“Você pode imaginar a fumaça do incenso subindo enquanto o vinho no altar vaporiza, criando uma conexão visual com o reino das divindades […] Então é um convite aos deuses e também uma espécie de purificação por causa do cheiro e da fumaça” disse Eber.
Anteriormente, arqueólogos já tinham encontrado evidências das extensas redes de comércio de Pompeia, essa nova pesquisa ajuda a reforçar sua ligação com outras civilizações.
O arqueólogo da Universidade Ludwig Maximilian de Munique e coautor do estudo, Philipp Wolfgang Stockhammer, reforçou que os antigos romanos importavam muito mais do que imaginavam. “Havia um comércio muito intenso com a Índia, mas era basicamente de especiarias, incenso e outras coisas que são praticamente invisíveis para nós até que tenhamos a oportunidade de fazer algo como uma análise de resíduos”, disse à Ariel David, do Haaretz.
O diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, Gabriel Zuchtriegel, declarou para a Universidade de Bonn que sem a Pompeia o conhecimento do mundo romano seria mais pobre.