Rituais da Grécia Antiga podem ter utilizado fungo psicodélico, indica estudo
Estudo indica que sacerdotisas da Grécia Antiga podem ter neutralizado fungo tóxico, preservando efeitos psicoativos para rituais; entenda!

Uma nova análise química indica que sacerdotisas ligadas aos Mistérios de Elêusis, um dos cultos religiosos mais reverenciados da Grécia Antiga, podem ter manipulado um fungo tóxico para produzir substâncias alucinógenas utilizadas em rituais iniciáticos. A hipótese, embora considerada plausível por parte dos pesquisadores, ainda não constitui prova histórica de que tal prática tenha ocorrido.
O estudo foi publicado em 13 de fevereiro na revista Scientific Reports e apresenta resultados de experimentos laboratoriais que buscaram neutralizar a toxicidade do ergot, fungo conhecido cientificamente como Claviceps purpurea, preservando suas propriedades psicoativas. Um dos pontos centrais da pesquisa foi a utilização exclusiva de técnicas simples, compatíveis com o conhecimento tecnológico disponível na Antiguidade, período em que o culto surgiu há cerca de 3.000 anos.
Cultos psicodélicos?
A chamada teoria da “Eléusis Psicodélica”, que propõe o uso de substâncias derivadas do ergot nos rituais, circula desde a década de 1970. Segundo Evangelos Dadiotis, cientista farmacêutico da Universidade de Atenas, o novo trabalho é o primeiro a apresentar evidências experimentais que sustentem essa possibilidade. “A questão central era se o ergot tóxico poderia realisticamente ter sido processado em algo psicoativo, mas não letal, usando métodos disponíveis na antiguidade”, disse ele em e-mail ao Live Science. “Usamos uma preparação simples de soda cáustica [hidróxido de sódio] feita de água e cinzas, uma tecnologia bem conhecida no mundo antigo”, afirmou.
Nos testes, cinzas de madeira foram empregadas para produzir uma solução alcalina capaz de degradar as proteínas tóxicas do ergot ao longo do tempo. O processo resultou em subprodutos não tóxicos, entre eles a amida do ácido lisérgico (LSA), substância quimicamente semelhante ao LSD, embora menos potente. A pesquisa sugere que os gregos poderiam ter tratado o fungo para produzir uma bebida psicodélica sem efeitos letais.
Ainda assim, especialistas ressaltam que a viabilidade química não equivale à comprovação histórica. Os Mistérios de Elêusis eram cerimônias secretas centradas na veneração de Deméter, deusa da fertilidade, e de sua filha Perséfone, associada à primavera. O culto teve origem na cidade de Elêusis e se expandiu pelo mundo greco-romano, atraindo inclusive figuras de destaque como o imperador Augusto, que se tornou iniciado, ou “mystai”.
Os rituais ocorriam duas vezes ao ano — os “mistérios menores”, na primavera, e os “mistérios maiores”, no outono — e incluíam procissões, banhos rituais, sacrifícios e períodos de jejum. Ao final, os participantes ingeriam uma bebida chamada kykeon, preparada com cevada e ervas. A hipótese defendida pelos autores do estudo é que extratos de ergot tratados teriam sido adicionados ao kykeon.
Em 2002, pesquisadores afirmaram ter identificado vestígios de substâncias psicoativas em um vaso cerimonial de um sítio eleusino na Espanha e na placa dentária de um indivíduo sepultado no local, o que reforçaria a possibilidade do uso ritual dessas substâncias. Entre as ervas citadas na composição do kykeon está o poejo (Mentha pulegium), que poderia ter ajudado a disfarçar o sabor amargo do fungo.
A teoria do uso de alucinógenos no culto foi apresentada anteriormente na obra ‘O Caminho para Elêusis: Revelando o Segredo dos Mistérios’ (1978), assinada por Gordon Wasson, Carl Ruck — também coautor do novo estudo — e Albert Hofmann, químico que sintetizou o LSD a partir de derivados do ergot em 1938.
Apesar dos novos dados experimentais, a interpretação histórica permanece em debate. “O novo estudo é uma peça interessante e tecnicamente rigorosa de química analítica”, disse Sharday Mosurinjohn, pesquisadora de estudos religiosos da Universidade Queen’s, em Ontário. “O que isso demonstra é a viabilidade química dentro de um contexto tecnológico antigo plausível”, mas “viabilidade química não é prova histórica”, disse Mosurinjohn. Segundo ela, o estudo não comprova que esse tipo de processamento era efetivamente realizado na Antiguidade nem que os iniciados consumiam substâncias psicoativas durante os rituais.
Dessa forma, embora a pesquisa amplie o debate sobre os possíveis componentes químicos dos Mistérios de Elêusis, a confirmação histórica do uso de alucinógenos nos rituais permanece inconclusiva.