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Restos de baleeiros revelam doenças e vida brutal no Ártico do século 17

Análise de restos mortais de baleeiros do século 17 em Svalbard mostram rotina exaustiva, sinais de escorbuto, traumas físicos e tabagismo; confira!

Restos mortais de três baleeiros descobertos em Svalbard / Crédito: Loktu, Brødholt, 2026, PLOS One; CC-BY 4.0

Arqueólogos que estudam um antigo cemitério de baleeiros em Svalbard, no Ártico, encontraram evidências das duras condições enfrentadas pelos trabalhadores da caça às baleias entre os séculos 17 e 18. A análise dos esqueletos revelou sinais de escorbuto, desgaste físico intenso e até marcas associadas ao uso frequente de cachimbos. Ao mesmo tempo, os pesquisadores alertam que o sítio arqueológico está sendo rapidamente degradado pelas mudanças climáticas.

O local investigado é Likneset, nome que significa “Ponta dos Cadáveres” em norueguês. Situado no arquipélago de Svalbard, entre a Noruega continental e o Polo Norte, o cemitério é considerado o maior já identificado relacionado às vítimas da caça às baleias na região. Centenas de sepulturas rasas marcadas por pedras foram encontradas na área, usada durante o auge da exploração baleeira no Ártico.

Os resultados foram publicados na revista científica PLOS One na última quarta-feira, 20. No estudo, arqueólogos analisaram 20 sepulturas e concluíram que os homens enterrados no local viveram sob condições extremamente severas.

“A caça às baleias no Ártico no início da era moderna foi uma das primeiras indústrias extrativas em larga escala da Europa, e o trabalho era altamente manual”, disse Lise Loktu, primeira autora do estudo e arqueóloga do Instituto Norueguês de Pesquisa do Patrimônio Cultural, em um e-mail ao Live Science.

Vida de baleeiro

Segundo os pesquisadores, os baleeiros desempenhavam tarefas fisicamente desgastantes, como remar embarcações, transportar animais vivos, rebocar carcaças e processar gordura de baleia em ambientes gelados e úmidos. Essa rotina deixou marcas evidentes nos esqueletos analisados.

“O que chama a atenção no material esquelético é que podemos realmente ver essa carga de trabalho refletida no corpo”, disse Loktu.

Os exames identificaram doenças articulares degenerativas, traumas e sinais de esforço intenso nos ombros, coluna, quadris, joelhos e pés dos trabalhadores. Em muitos casos, homens ainda jovens já apresentavam danos físicos normalmente associados a pessoas mais velhas.

“Vários adultos muito jovens já apresentam desgaste e degeneração avançados, normalmente associados a fases muito mais avançadas da vida”, disse Loktu, sugerindo que esses homens estavam sobrecarregando seus corpos por um longo período de tempo.

Sinais de desgaste nos dentes de restos mortais de baleeiros / Crédito: Loktu, Brødholt, 2026, PLOS One; CC-BY 4.0

Outro aspecto recorrente foi a presença de escorbuto, doença causada pela deficiência de vitamina C. A condição era comum entre marinheiros de longas viagens entre os séculos 15 e 19, período em que ainda não se compreendia a origem biológica da enfermidade. Os sintomas incluem fraqueza muscular, anemia, sangramentos e perda dentária.

Na época, muitos europeus evitavam alimentos consumidos por populações indígenas do Ártico que poderiam ajudar na prevenção da doença, como o muktuk, preparado feito de pele e gordura de baleia rico em vitaminas C e D.

“O escorbuto não afeta apenas os ossos; ele também compromete o sistema imunológico, aumenta a vulnerabilidade a infecções, enfraquece a cicatrização de feridas e contribui para o declínio físico geral”, disse Loktu. “Acreditamos que isso provavelmente desempenhou um papel importante no enfraquecimento físico dos homens.”

A pesquisa também encontrou indícios de tabagismo frequente. Muitos esqueletos apresentavam marcas circulares nos dentes provocadas pelo hábito de segurar cachimbos de barro com a boca. Segundo os pesquisadores, o consumo de tabaco pode ter agravado ainda mais os problemas nutricionais enfrentados pelos baleeiros.

“Embora o tabagismo em si não explique o escorbuto, o uso do tabaco pode ter agravado a saúde geral e o estresse nutricional”, disse Loktu. “Parece provável que o trabalho árduo prolongado, o estresse nutricional, as doenças e a fragilidade física geral tenham sido a ‘gota d’água’ que levou corpos já debilitados a um estado de irrecuperação.”

Sinais de desgaste nos dentes de restos mortais de baleeiros / Crédito: Loktu, Brødholt, 2026, PLOS One; CC-BY 4.0

Além das descobertas sobre a saúde dos trabalhadores, os cientistas destacaram a rápida deterioração do próprio sítio arqueológico. Ao comparar escavações realizadas no fim da década de 1980, em 2016 e em 2019, a equipe constatou que o permafrost responsável por preservar as sepulturas está desaparecendo devido ao aquecimento acelerado do Ártico e à erosão costeira, repercute o Live Science.

“O rápido aquecimento do Ártico está acelerando a degradação de sítios arqueológicos preservados pelo permafrost, colocando os sepultamentos de baleias ricos em matéria orgânica em Svalbard entre os contextos patrimoniais mais vulneráveis”, escreveram os pesquisadores no estudo.

Os autores afirmam que o monitoramento constante das condições de preservação será essencial nos próximos anos, já que a degradação climática ameaça apagar informações importantes sobre a vida dos baleeiros do início da era moderna.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.