Pesquisadores usam focas para estudar ‘geleira do fim do mundo’ na Antártida
A chamada "geleira do fim do mundo" tem potencial para acelerar significativamente a elevação do nível do mar caso entre em colapso e derreta

A geleira Thwaites, situada no oeste da Antártida, é vista como uma das regiões mais sensíveis do planeta. Conhecida como “geleira do fim do mundo”, ela tem potencial para acelerar a elevação do nível do mar caso entre em colapso e derreta. Por esse motivo, uma equipe de pesquisadores decidiu investigar o que ocorre sob essa imensa camada de gelo. Para isso, passaram a contar com a ajuda das focas-de-weddell (Leptonychotes weddellii).
Adaptados ao frio extremo e capazes de realizar mergulhos profundos, esses mamíferos atuam como verdadeiras plataformas móveis de pesquisa. Equipadas com sensores, as focas coletam dados em áreas onde navios e instrumentos científicos não conseguem chegar, sobretudo durante o rigoroso inverno antártico.
Como explica o portal Galileu, a iniciativa integra uma expedição internacional liderada pelos ecólogos Ji-Yeon Cheon e Hyunjae Chung, doutorandos da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul. “No mar de Amundsen, especialmente perto da geleira Thwaites, há mudanças ambientais muito rápidas”, afirmou Cheon ao jornal The New York Times. Embora a espécie não esteja atualmente ameaçada, segundo ela, ainda há muito a compreender sobre como esses animais estão reagindo às transformações no oceano.
Como funciona
Os sensores instalados na cabeça das focas têm peso e tamanho equivalentes aos de três smartphones empilhados. Durante os mergulhos, os dispositivos registram profundidade, temperatura, salinidade e localização da água. Ao voltarem à superfície, as informações são enviadas via satélite.
Já o processo de marcação das focas exige precisão e cuidado. Os pesquisadores se aproximam lentamente, muitas vezes após um helicóptero conduzir o animal até o centro de uma placa de gelo, impedindo que escape para o mar. Depois, aplicam um sedativo com tubo de sopro ou seringa, dependendo do comportamento da foca.
Após a aplicação, a equipe se afasta e aguarda, já que o sedativo pode levar mais de dez minutos para fazer efeito. Quando o animal adormece, os cientistas cobrem sua cabeça com um saco de tecido respirável para reduzir estímulos visuais e facilitar o procedimento. Somente então o sensor é fixado.
Dados são essenciais
Durante o inverno, quando o gelo marinho bloqueia a passagem de embarcações, as focas tornam-se praticamente a única fonte de informações sobre a dinâmica física do oceano na região. Como podem mergulhar a cerca de mil metros de profundidade, permitem a coleta de dados em camadas que exigiriam operações longas e complexas com equipamentos tradicionais.
Essas informações ajudam a entender como correntes de águas mais quentes estão desgastando a base da geleira Thwaites. O mesmo processo traz nutrientes do fundo do mar, como ferro, que sustentam peixes e outros organismos, alterando cadeias alimentares inteiras. Os cientistas acreditam que transformações semelhantes possam estar ocorrendo sob plataformas de gelo e icebergs em processo de derretimento.