Novo governo do Chile pausa investigações à local de tortura de Pinochet
Administração chilena reverte desapropriação do imóvel fundada pelo nazista Paul Schäfer, interrompendo pesquisa sobre torturas no governo Pinochet

O novo presidente do Chile, José Antonio Kast, em menos de um mês de chegada ao poder já está tentando paralisar as pesquisas no sítio de tortura de Augusto Pinochet e o nazista Paul Schäfer.
A Villa Baviera, ou como era chamada Colônia Diginidad, foi centro de tortura, assassinato, estupro e seita religiosa pelo ex-militar nazista Paul Schäfer. No entanto, os discursos de valorização do ditador Augusto Pinochet por parte de Kast parece também querer apagar do passado os absurdos cometidos.
Paul Schäfer
Como todo nazista, Paul Schäfer era bom em fugir. Foi por isso que foi até o Chile, encontrando lá um presidente que o via como ferramenta para seu governo. No entanto, antes de tudo é preciso entender que Schäfer fundou em 1961, no Sul do Chile, a Colônia Dignidad.
Porém, essa colônia de refugiados alemães e chilenos que se aproximaram ao longo do tempo, acobertavam uma série de assassinatos, torturas e abusos físicos e mentais às mais diversas vítimas.
Ainda, esse grupo da colônia chegou a ter mais de 300 moradores, que viviam sobre os mandamentos e ensinamentos de Paul Schäfer, evitando o contato com o mundo externo à vila. Ou seja, viviam sobre o domínio mental de um militar nazista, um verdadeiro culto extremista escondido no interior do Chile.
Além de todas essas coisas, Schäfer também era contrabandista de armas. Assim o nazista construiu um verdadeiro castelo vivo para acobertar seus estupros e torturas à crianças e vulneráveis nos seus “campos de extermínio” escondidos mata a dentro.
Augusto Pinochet
Para além do responsável pela crise econômica, política e social que o Chile se encontra até hoje, Augusto Pinochet foi um ditador no Chile sobre a premissa de liberdade irrestrita ao mercado. Entretanto, a mesma liberdade não pairava sobre seus opositores políticos.
Dessa forma, durante os anos do General no comando, as recentes investigações ao redor da Colonia Dignidad, comprovaram que opositores políticos do governo central eram enviados até Schäfer para serem exterminados. Acredita-se que o número passe de 100 vítimas políticas.
Embora a manutenção do sítio de investigação histórica seja vista como essencial para a construção de uma memória da ditadura de Pinochet, as políticas aplicadas pelo novo presidente chileno vão de contra-mão desse pensamento.
José Antonio Kast
Assim, justamente com a motivação de interromper completamente as investigações históricas, José Antonio Kast quer reverter a desapropriação do terreno para fins científicos. Ou seja, fazer com que o terreno não seja mais do Estado e só entre quem os descendentes de Schäfer deixar.
Conforme o The Guardian, o ministro da habitação, Iván Poduje, justificou que a desapropriação do local teria custado mais de US$ 50 milhões para o governo anterior, e que esse dinheiro retornaria para a Tesoura Nacional, embora não tenha fornecido provas para apoiar a alegação.
Os ministérios da habitação e da justiça não quiseram comentar mais sobre seus planos. Vale a pena destacar que Kast retirou abruptamente quatro dos coordenadores do plano de busca à provas. Inclusive, dentre eles estava o chefe do programa nacional de direitos humanos, removido após 14 anos no cargo.
Concluindo, estamos diante de um verdadeiro momento de apagamento histórico. Para fechar, vale citar a fala de Margarita Romero, presidente da Asociación por la Memoria y los Derechos Humanos Colonia Dignidad:
O que estamos testemunhando não são incidentes isolados, mas um padrão claro de regressão nos direitos humanos. […] Não há indicação alguma de um compromisso genuíno com a busca da verdade. E é justamente essa verdade que os deixa desconfortáveis.”
*Sob supervisão de Fabio Previdelli