Nova espécie de cobra ‘de duas cabeças’ é descoberta na China
Nomeada Calamaria incredibilis, nova espécie de cobra descoberta na China usa a cauda para imitar a cabeça e confundir predadores

Uma pequena serpente subterrânea encontrada no sul da China chamou a atenção de pesquisadores por apresentar uma característica rara: sua cauda se assemelha tanto à cabeça que o animal passou a ser conhecido popularmente como “cobra de duas cabeças”. A espécie foi oficialmente descrita em abril na revista científica Zoosystematics and Evolution com o nome de Calamaria incredibilis.
Segundo os cientistas, o nome foge do padrão comum da taxonomia. Em vez de homenagear uma região ou pesquisador, os autores utilizaram o termo latino incredibilis — “inacreditável”, em português — para destacar a surpresa diante da diversidade escondida entre as chamadas cobras-de-junco. A revista Discover destacou a descoberta como uma das mais curiosas recentes da herpetologia — ramo da zoologia dedicado ao estudo científico dos anfíbios e répteis.
Apesar da aparência incomum, a nova espécie não é venenosa, assim como a maioria das quase 4 mil espécies de serpentes conhecidas atualmente. Ainda assim, desenvolveu uma estratégia de defesa considerada singular pelos pesquisadores.
Quando ameaçada, a Calamaria incredibilis levanta a cauda curta e arredondada e passa a movimentá-la de maneira semelhante à cabeça. O efeito é reforçado por padrões corporais parecidos nas duas extremidades do corpo, criando a ilusão visual de uma serpente com duas cabeças. Os cientistas acreditam que esse mecanismo possa confundir aves e outros predadores, que acabam direcionando ataques à cauda em vez da região vital.
Até agora, apenas dois exemplares da espécie foram identificados. Ambos são machos adultos de aproximadamente 20 centímetros de comprimento. Os animais apresentam corpo cilíndrico, coloração marrom-avermelhada e sete listras escuras distribuídas ao longo do corpo. O ventre é claro e possui manchas nas extremidades.
Outro aspecto que chamou atenção dos pesquisadores foi a proporção da cauda. Ela corresponde a cerca de 8% do comprimento total do animal, índice considerado extremamente incomum entre serpentes.

Detalhes do estudo
A confirmação de que se tratava de uma espécie inédita exigiu análises detalhadas. Os pesquisadores utilizaram tomografia computadorizada de microfoco, conhecida como micro-CT, para produzir reconstruções tridimensionais do crânio. As imagens revelaram diferenças anatômicas importantes em relação às espécies aparentadas.
Além das análises morfológicas, testes genéticos indicaram uma distância evolutiva superior a 12% em comparação com os parentes mais próximos da serpente. Para os cientistas, trata-se de um índice elevado dentro de um grupo cujas espécies costumam apresentar aparência externa muito semelhante.
Os autores também examinaram características como número de escamas, coloração e proporções corporais para confirmar que os dois espécimes pertenciam a uma espécie ainda não catalogada pela ciência, repercute a Revista Galileu.
A localização dos registros também intrigou os pesquisadores. Um dos exemplares foi encontrado no condado de Ningming, a cerca de 1.060 metros de altitude. O outro apareceu mais de 500 quilômetros ao nordeste, em uma reserva natural de Guilin. A distância entre os pontos sugere que a distribuição geográfica da espécie pode ser maior do que o inicialmente imaginado.
Apesar da descoberta, ainda existem poucas informações sobre os hábitos da serpente. Os cientistas não sabem, por exemplo, o tamanho da população, os padrões reprodutivos ou o nível de ameaça enfrentado pela espécie. Por causa dessa falta de dados, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou a Calamaria incredibilis na categoria “Dados Insuficientes”.
O estudo também reforça a relevância científica da região chinesa de Guangxi. A área possui relevo acidentado, formações calcárias e um histórico geológico complexo, fatores que favoreceram o isolamento de diferentes populações animais ao longo de milhões de anos.
Segundo os pesquisadores, essas condições ajudam a explicar por que diversas espécies inéditas de répteis vêm sendo identificadas na região nos últimos anos. Várias cobras-de-junco próximas da Calamaria incredibilis, inclusive, foram descritas ou reavaliadas recentemente.
Os cientistas também levantam a possibilidade de que exemplares armazenados em coleções científicas e classificados anteriormente como Calamaria pavimentata pertençam, na verdade, a espécies ainda desconhecidas. Para os autores, a chamada “cobra de duas cabeças” pode representar apenas uma pequena parte da diversidade subterrânea ainda oculta no sul da China.