Serpentes estão evoluindo para o canibalismo, segundo estudo
Pesquisa científica mostra que o comportamento de comer membros da própria espécie surgiu repetidamente na evolução das serpentes

O comportamento canibalístico entre serpentes — quando cobras se alimentam de outras cobras da mesma espécie — não é apenas um episódio isolado e raro na natureza, como muitos imaginam. Cientistas descobriram que esse padrão evolutivo surgiu de forma independente várias vezes ao longo da história evolutiva desses répteis, sugerindo que ele pode desempenhar um papel estratégico e vantajoso para as serpentes em determinadas condições ambientais, segundo pesquisa publicada em novembro de 2025 na revista Biological Reviews.
A análise reuniu mais de 500 relatos de canibalismo em serpentes, envolvendo pelo menos 207 espécies distribuídas em 15 famílias diferentes, em todo o mundo. Esses registros abrangem tanto observações em ambiente natural quanto em cativeiro e foram usados para investigar como e por que o canibalismo ocorre em diferentes grupos de serpentes.
Serpentes canibais
Os pesquisadores notaram que o canibalismo pode surgir em situações de escassez de alimento, competição intensa por recursos, ou como uma resposta oportunista diante de circunstâncias difíceis para caça tradicional. Em outras palavras, para as cobras, comer outra cobra pode ser uma resposta adaptativa à falta de presas mais comuns ou uma forma de ajuste diante de desafios ambientais.
Outro ponto importante é que esse comportamento não parece ser simplesmente aleatório ou acidental: o estudo sugere que o canibalismo evoluiu independentemente em pelo menos 11 linhagens de cobras, o que reforça a ideia de que ele é recorrente na evolução das espécies e pode estar relacionado à flexibilidade ecológica desses animais.
Os casos identificados foram mais frequentes em famílias como Colubridae, que representa cerca de 29% dos registros; Viperidae (21%) e Elapidae (19%), grupos conhecidos por sua diversidade e ampla distribuição global. Entre as serpentes do tipo colubrídeo — que em geral não costumam se alimentar de outras cobras — o canibalismo pode estar ligado a situações de estresse ecológico ou limitação de alimento.
Segundo os autores do estudo, o fato de quase metade das espécies canibais terem dieta generalista — que inclui uma ampla gama de presas — pode facilitar o surgimento desse comportamento como uma alternativa quando outras fontes de alimento não estão disponíveis. Ainda assim, alguns especialistas permanecem cautelosos e sugerem que essa associação ainda precisa de mais investigação.
O canibalismo em serpentes também pode estar relacionado à capacidade física de consumir outros exemplares, o que depende da estrutura mandibular e do tamanho corporal de cada espécie. Essa característica anatômica parece ser um fator importante para explicar por que nem todas as serpentes praticam esse tipo de alimentação.