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Múmia revela primeira cabeça-troféu andina com lábio leporino descoberta no Peru

Cabeça mumificada descoberta nos Andes, no sul do Peru, é a primeira cabeça-troféu andina com lábio leporino identificada; confira!

Desenho representando a cabeça com lábio leporino, e antiga cabeça-troféu da cultura Nazca / Crédito: Divulgação/Ñawpa Pacha/Grace D. Eriksen em BK Scaffidi / Domínio Público

Uma recente análise de uma cabeça-troféu andina proveniente do sul do Peru está proporcionando novas perspectivas sobre a forma como as sociedades antigas percebiam indivíduos com condições congênitas.

A partir de fotografias contidas em catálogos de museus, pesquisadores identificaram um caso definitivo de fissura labial e palatina (CLP) — também conhecido como lábio leporino — em uma cabeça mumificada atualmente armazenada na França. Este é o primeiro exemplo conhecido de CLP em uma cabeça-troféu andina e uma das poucas confirmadas de restos humanos na região.

As cabeças-troféu, cuidadosamente preparadas, consistem em restos humanos decapitados que fizeram parte das práticas rituais andinas há séculos. Essas relíquias eram coletadas em contextos de guerra, veneração aos ancestrais e cerimônias que tratavam a cabeça como um objeto poderoso.

Ao longo dos séculos, muitas destas cabeças acabaram em coleções particulares e museus, frequentemente sem documentação adequada. A cabeça analisada foi listada em um catálogo de exposição de 2021, com suas origens rastreadas até a região de Paracas, na costa sul do Peru. Apresenta uma pátina âmbar brilhante e brincos de cobre, sugerindo um tratamento especial durante a vida e após a morte.

As fotografias indicam que o indivíduo era um homem jovem com uma fissura unilateral afetando o lado esquerdo da boca. Embora a CLP possa dificultar a alimentação na infância e, consequentemente, desafiando a sobrevivência até a idade adulta, ele conseguiu alcançar essa fase da vida. Isso já o coloca em um grupo raro, visto que apenas alguns exemplos de CLP com longevidade são conhecidos no contexto arqueológico andino.

Lábios leporinos nos Andes

Este caso é comparado a 30 vasos cerâmicos que retratam pessoas com diferenças faciais semelhantes. Criados no norte do Peru e no sul do Equador, esses vasos ilustram indivíduos vestindo roupas de elite ou engajados em atividades rituais.

Antigas estatuetas e vasos andinos com figuras representadas com lábios leporinos / Crédito: Divulgação/Ñawpa Pacha

Juntamente com relatos coloniais iniciais, esses achados indicam que indivíduos nascidos com CLP frequentemente desempenhavam papéis sacerdotais ou espiritualmente significativos. Em vez da estigmatização das diferenças faciais congênitas, muitas sociedades andinas pareciam considerar essas condições como marcadores de proteção sobrenatural ou poder sagrado, repercute o Archaeology News.

No contexto cultural mais amplo, a questão do status deste indivíduo se torna central. A trança do cabelo, os brincos preservados e a atenção dedicada à preparação da cabeça sugerem que esta era uma pessoa importante. A própria presença da fissura pode ter influenciado a preparação da cabeça, já que o método usual para fechar a boca com espinhos de cacto seria inviável em um dos lados.

Estudos genéticos e registros médicos modernos no Peru indicam que a CLP tem raízes antigas, especialmente nas regiões costeiras. Fatores ambientais — como hipoxia em altitudes elevadas ou exposição ao álcool durante a gravidez — podem ter moldado os padrões antigos de ocorrência da CLP. Muitas vezes, as cosmologias andinas explicavam condições congênitas como resultado de experiências específicas vividas pelas mães durante a gestação. Essas explicações são comparáveis às compreensões modernas sobre o estresse e fatores ambientais que influenciam o desenvolvimento fetal.

Como o estudo, publicado na Ñawpa Pacha, se baseia em fotografias e não em um exame físico completo, muitos detalhes permanecem especulativos. Um exame direto do crânio, testes de DNA e estudos isotópicos dos cabelos e ossos poderiam ajudar a contar uma história mais específica sobre o sexo, dieta, saúde e origens do indivíduo. No entanto, o presente caso oferece uma oportunidade única para explorar como os antigos andinos tratavam, interpretavam e honravam aqueles nascidos com diferenças físicas.

A cabeça-troféu oferece mais do que um diagnóstico anatômico; ela destaca como as perspectivas culturais sobre deficiência, identidade e sacralidade interagiram, revelando um mundo onde uma condição facial congênita poderia elevar um indivíduo, ao invés de marginalizá-lo, tanto na vida quanto na morte.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.