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Indígenas australianos teriam sido os primeiros “paleontólogos”, de acordo com nova análise

Novo estudo sobre um fóssil de canguru gigante desafia a ideia de que os humanos foram responsáveis pela extinção da megafauna na Austrália

O osso fossilizado de um canguru gigante extinto, descoberto na Caverna Mammoth, na Austrália Ocidental - Crédito: Anna Gillespie/Universidade de New South Wales, Austrália

Um osso gigante de canguru estaria desafiando a ideia de que os humanos teriam exterminado a megafauna da Austrália. Segundo nova análise, os indígenas australianos poderiam ter sido os primeiros “paleontólogos” e não os caçadores de animais de grande porte, conforme repercutido pela revista Smithsonian.

Eles teriam sido coletores de fósseis, e não caçadores, como os que levaram a megafauna à extinção.

Por cerca de mais de 40 anos, os pesquisadores acreditavam que os cortes no osso da perna de um canguru gigante extinto eram causados por caça humana. Após uma nova análise, que só foi possível pelo avanço da tecnologia, indicam que os cortes foram feitos após a fossilização do osso.

Os resultados dos estudos foram publicados na Royal Society Open Science em 22 de outubro.

Avanços tecnológicos

Michael Archer, autor do estudo, é paleontólogo da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, na Austrália e estava envolvido na pesquisa original em 1980 e agora no novo trabalho, para ele essa mudança na interpretação original é graças aos avanços tecnológicos

Em 1980, interpretamos o corte como evidência de abate, porque essa era a melhor conclusão que podíamos tirar com as ferramentas disponíveis na época”, afirma em um comunicado o autor do estudo, Michael Archer.

Conforme o estudo, não há dúvidas de que as incisões nos ossos foram feitas com ferramentas humanas, mas o que muda é quando essa incisão foi feita — o que altera toda a narrativa em torno da nossa compreensão sobre as interações entre humanos e a megafauna há cerca de 65 mil anos.

Archer ainda comenta, em entrevista à Australian Broadcasting Corporation, que a descoberta pode não agradar a todos e que pode irritar as pessoas que ainda estão convencidas de que os povos das Primeiras Nações foram a principal razão pela qual as espécies da megafauna foram extintas.

Novas pistas

O osso analisado pertence a um canguru estenurídeo gigante e foi encontrado na Caverna Mammoth, no sudoeste da Austrália, no início do século 20. A equipe de pesquisa utilizou um método avançado de escaneamento chamado microCT para observar o interior do osso sem danificá-lo. Os cientistas também aplicaram técnicas de datação radiométrica para determinar a idade do fóssil.

A análise revelou que o osso desenvolveu rachaduras de contração antes do corte ser feito, mas depois que o animal morreu — o que indica que o material já estava em processo de fossilização e não se tratava de um animal recém-caçado por humanos.

Ligação simbólica

Para traçar um quadro mais completo da interação humana com a megafauna, os pesquisadores também analisaram um amuleto feito de um dente fossilizado pertencente a um marsupial extinto, parente distante dos vombates.

O dente foi doado inicialmente a um arqueólogo que trabalhava com povos das Primeiras Nações em Kimberley, na Austrália Ocidental. A região fica a quase 3.200 quilômetros da Caverna Mammoth, mas os pesquisadores suspeitam que o fóssil tenha se originado perto da caverna devido às suas características e composição. A semelhança entre o amuleto e outros fósseis do local sugere que ele foi transportado ou comercializado por longas distâncias.

Essa nova compreensão sobre o osso fossilizado também ajuda a esclarecer o valor que os indígenas australianos davam à arte simbólica, ao comércio e à cooperação, afirmou James McCallum, paleontólogo da Universidade de Nova Gales do Sul, em entrevista à ScienceNews.